sexta-feira, 31 de maio de 2013

O rock de Brasília e a história de uma geração!

O rock de Brasília e a história de uma geração

Rede Brasil Atual - 27/05/2013 - Por Xandra Stefanel



Thiago Mendonça interpreta (ou melhor, encarna) Renato Russo no excelente filme 'Somos Tão Jovens'. 
    Jovens vivendo sob uma ditadura e influenciados pelo punk inglês, entre outras sonoridades: a receita para o nascimento de bandas no Distrito Federal, nos anos 1980, mudando a cena musical brasileira

    Além do filme Faroeste Caboclo, que narra a história de uma das canções mais famosas da Legião Urbana e estreia em 430 salas na semana que vem, está em cartaz o longa-metragem Somos Tão Jovens, espécie de cinebiografia de Renato Russo. 

    Dirigido por Antônio Carlos Fontoura, o filme mostra a trajetória de Renato Manfredini Júnior antes de se tornar o mito Renato Russo. Da adolescência ao surgimento da turma da Colina, um grupo de amigos que transformaria o rock de Brasília em um dos mais viscerais na década de 1980 (e também tema do documentário Rock Brasília – Era de Ouro, de Vladimir Carvalho, lançado no final de 2011).

    O pano de fundo do filmes é uma cidade entediante e opressora. E é neste contexto que Renato e amigos, também fãs do punk inglês, rasgam suas roupas e usam a música para extravasar a energia reprimida. É junto dessa turma, mais especificamente com o início de sua primeira banda, Aborto Elétrico, que ele começa a desenvolver sua habilidade como letrista.

    No início do filme, o ator que interpretou Renato Russo, Thiago Mendonça, pode até deixar dúvidas se sua atuação chegará à altura do mito. Mas com o tempo ele incorpora de tal forma os trejeitos e a força de Renato, que acaba se tornando um retrato fiel do cantor.

    Fontoura mostra o contexto em que é gerada a Legião Urbana, mas decide terminar seu filme por aí, antes que ela se tornasse uma das mais importantes e expressivas bandas brasileiras. E está aí o êxito de seu filme, que é repleto de música e jovialidade.

    O país ainda estava sob uma ditadura, em 1982, quando a Legião Urbana nasceu. Renato Manfredini Jr., o Renato Russo, já tinha fundado, em 1978, o Aborto Elétrico e em seguida apresentou-se sozinho como Trovador Solitário. As reuniões no conjunto habitacional da Colina reuniam, desde o final da década de 1970, Renato, Fê e Flávio Lemos, André Pretorius, Philippe Seabra entre outros garotos fascinados pelo som das bandas britânicas The Clash, The Cure e Joy Division (Seabra, que formaria a Plebe Rude, é o responsável pela trilha sonora de Faroeste Caboclo).

    Eles faziam parte da classe média de Brasília, eram cultos e adeptos da cultura punk. Como eram jovens contestadores que viviam no centro do poder do país e acompanhavam de perto os desmandos da ditadura, não era de se estranhar que estivessem ávidos para pôr para fora tudo o que pensavam sobre a política e a sociedade da época. Neste cenário, praticamente juntos, nasceria a primeira geração de músicos brasilienses: as bandas Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial.

    A vida cinza na capital federal e a abertura política que estava sendo gestada moldou completamente rock dessas bandas. O som delas era diferente do rock do Rio de Janeiro e de São Paulo. É certo que postura contestadora do grupo causaria problemas. Já no primeiro show da Legião e da Plebe Rude, em 1982, em Patos de Minas, as bandas cantaram, respectivamente, Que País é Esse? e Vote em Branco e acabaram detidas pela polícia após a apresentação.

    Com a Legião Urbana, nasceu uma nova maneira de escrever as letras e de cantar. A angústia e a tensão na música e na voz de Renato eram diferentes de tudo o que existia na música nacional até então. O primeiro álbum, lançado pela EMI em 1985, leva o nome da banda, até então composta por Renato, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha. Com Geração Coca-Cola, faziam uma crítica nada ingênua aos jovens, uma espécie de desabado, um grito para que sua geração, crescida sob os coturnos da ditadura, acordasse.

    O segundo disco, Dois, lançado no ano seguinte, era menos punk e mais folk e trazia os sucessos Eduardo e Mônica, Música Urbana 2, Fábrica e Índios. Foi no terceiro álbum, Que País é Este 1978/1987, que nasceu a triste história de João de Santo Cristo, de Faroeste Caboclo, que acaba de virar filme.

    Em Quatro Estações, de 1989, o tom da banda já estava diferente, mais filosófico e introspectivo. Aqui, novas problemáticas de daquela geração vêm à tona: a sexualidade (Meninos e Meninas e Maurício), as relações familiares (Pais e Filhos) e a Aids (Feedback Song for a Dying Friend, uma homenagem à Cazuza, também contaminado pelo vírus HIV).

    Em 1991, quando V foi lançado, Fernando Collor de Mello comandava o Brasil. Além do clima de desesperança que o país vivia, o tom sombrio dos arranjos do disco refletia também o problema que Renato Russo enfrentava com as drogas e a Aids, recém-descoberta.

    O disco Música para Acampamentos, de 1992, é uma compilação dos sucessos anteriormente gravados pela banda que serviria como um respiro até que a poeira baixasse e eles pudessem voltar aos estúdios, com O Descobrimento do Brasil, a última (e mais curta) turnê da Legião Urbana.

    Renato lançou dois álbuns solos, The Stonewall Celebration Concert e Equilíbrio Distante. Depois o grupo voltou a se reunir para gravar um novo disco. A Tempestade ou O Livros dos Dias foi feito já com Renato bem debilitado e foi lançado em 1996. 

    Mesmo não tendo anunciado publicamente que era portador do vírus da Aids, era evidente que com Via Láctea Renato Russo se despedia da Legião Urbana e do público ("Eu nem sei por que me sinto assim/ Vem de repente um anjo triste perto de mim/ E essa febre que não passa/ E meu sorriso sem graça/ Não me dê atenção/ Mas obrigado por pensar em mim").

    Um mês depois do lançamento do álbum, em outubro de 1996, o vocalista morria, aos 36 anos.

    Entre discos gravados em estúdio, ao vivo e compilações, 16 álbuns foram lançados pela Legião Urbana. Não é à toa que o conjunto da obra compõe o retrato de uma geração, com toda sua rebeldia, seus excessos, questionamentos, críticas políticas e os conflitos amorosos, tão presentes nas letras e na vida de Renato Russo.

    Link:


    Philippe Seabra comenta sobre o filme 'Faroeste Caboclo':