terça-feira, 10 de setembro de 2013

'Scandi Crime' continua fazendo sucesso em todo o mundo!

Queda do interesse pelo Scandi Crime? - PublishNews - 22/07/2013 - Pasi Loman


Nordic Noir vs French Noir


“O fenômeno cultural da região que nos deu séries como The Bridge, Borgen e The Killing não mostra nenhum sinal de desaceleração”, escrevem Paul Bignel e Paul Gallagher na edição de 17 de junho de 2013 do jornal britânico The Independent em um artigo sobre livros, filmes e séries de TV dos países nórdicos. 

Então por que, apenas um mês depois, o mesmo jornal, em artigo divulgado pelo PublishNews, afirma que há uma queda no interesse por histórias de detetives e crime nórdicos...”? 

Porque a última afirmação foi feita por pessoas que buscam promover romances policiais franceses: uma editora, um tradutor de francês-inglês e a chefe do departamento de livros do Instituto Francês. De fato, é do interesse destes afirmar que o “Scandi Crime” esteja em declínio e que a ficção policial francesa trará a próxima onda de sucessos.
 
Claro que é possível que mais autores franceses de romance policial estejam surgindo. Porém, apenas o fato de que o autor francês Fred Vargas tenha ganho o prêmio CWA não pode ser visto como evidência de uma “nova onda”, especialmente se considerarmos que esta é a terceira vez que ele o ganha. De qualquer maneira, o sucesso de autores franceses não significa que os autores escandinavos sofram com tal sucesso.
 
Na verdade, livros, filmes e séries de TV do Scandi Crime continuam a ser extremamente populares, como mostra o artigo de 17 de junho no The Independent. É evidente que pessoas que trabalham com o Scandi Crime, como eu, podem ser acusadas de ser tão parciais quanto os franceses. 

Devo, assim, apontar alguns fatos e estatísticas. Por trás dos fenômenos mundiais como Stieg Larsson, Henning Mankell e Jo Nesbo, há inúmeros autores escandinavos de romances policiais cujas obras foram traduzidas em 10, 20 ou mais idiomas, muitos dos quais venderam milhões de cópias e apareceram em listas de mais vendidos. 

Alguns exemplos incluem: Anna Jansson, editada em 14 países com mais de 1 milhão de livros vendidos; Viveca Sten, publicada em 12 países com 1,2 milhões livros vendidos somente na Suécia (população de 9 milhões); Hakan Nesser, publicado em mais de 20 países com mais de 3 milhões de livros vendidos; Leena Lehtolainen, editada em 29 países com mais de 2,3 milhões de livros vendidos (o primeiro livro da Lehtolainen, Meu Primeiro Assassinato, será lançado no Brasil na Bienal do livro pela Vertigo, um novo selo da Autêntica, que também publicará em breve o norueguês Gunnar Staalesen e os irmãos dinamarqueses Hammer & Hammer e está avaliando outros autores nórdicos). 

Série de livros do autor Henning Mankell deu origem à séries de TV, como essa, produzida pela BBC, e protagonizada pelo ator Kenneth Branagh.

Tamanho é o talento e popularidade que a agência literária Vikings of Brazil, especializada em literatura nórdica, frequentemente se recusa a representar autores nórdicos de romances policiais que tenham sido vendidos em “apenas” 5 a 10 países.
 
Outra evidência do sucesso contínuo do Scandi Crime, ou Nordic Noir, são os eventos internacionais organizados em torno do tema. No mês passado aconteceu a Nordicana na Inglaterra e no mês que vem haverá um festival de Scandinavian Crime Cinema nos EUA, na American Film Institute (AFI) Silver Theatre. Praticamente todos os filmes no festival são baseados em livros, e obviamente os filmes ajudam vender mais livros e vice-versa.
 
Tambémé importante notar que o sucesso do Scandi Crime não depende de autores já estabelecidos. Novos autores são descobertos continuamente, que rapidamente conquistam o mundo com seus romances de estreia. Destes, podem ser mencionados sucessos recentes como Erik Axl Sund, vendido para 33 países (inclusive o Brasil), e Jacob Melander, vendido para 9 países (ainda disponível no Brasil).  

A conclusão é que não há queda no interesse pelo Scandi Crime, o gênero continua a vender extremamente bem e há fortes indícios que sugerem que seu sucesso internacional continuará por muito tempo.
 
Pasi Loman é agente literário, sócio da Vikings of Brazil Agência Literária e de Tradução Ltda. & representante do Instituto Ibero-Americano da Finlândia no Brasil.

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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

ROMANCE NÓRDICO - Uma fórmula de sucesso vinda do frio!


ROMANCE NÓRDICO - Uma fórmula de sucesso 

vinda do frio - 


por Carlos eugÊNIO AUGUSTO, DO 

BLOG 'RUA DE BAIXO

Stieg Larsson, Jo Nesbo, Henning Mankell, Arnauldur Indridason, Camilla Lackberg, Yrsa Sigurdardóttir, Asa Larsson, Lars Kepler, Karim Fossum, Mons Kalentoft. Estes nomes dizem-lhe alguma coisa? Não, não estamos a falar de personagens de Tolkien. Esta é uma lista possível que refere alguns dos nomes maiores do romance policial originário do norte da Europa que, de uma forma algo inesperada mas convincente, invadiram as livrarias de todo o mundo.
Suecos, dinamarqueses, finlandeses, islandeses, não importa; estes escritores colocaram a Escandinávia no mapa do que de melhor se faz em termos de literatura policial. Curiosamente – ou talvez não -, falamos de uma zona do globo que tem percentagens de incidências criminosas ínfimas comparadas com países como o Brasil ou Estados Unidos. Será a imaginação mais fértil por estas paragens?
Numa altura em que as grandes referências económicas dos países nórdicos como o são (ou eram) a Nokia, a Volvo e a Saab entraram em colapso, são os romances policiais que se assumem como um novo e determinante filão financeiro para a referida zona europeia. 
Para além de servir de cartão-de-visita, a literatura policial nórdica tornou-se numa imagem de marca e, autores como o malogrado Stieg Larsson ou Henning Mankell, conseguem vender milhões de livros, com destaque para as mais de 60 milhões de cópias da Trilogia “Millenum” já vendidas e a consequente adaptação cinematográfica das aventuras da magnética Lisbeth Salander.
A origem do policial
Através da sua história recente, a literatura viu surgiu novos géneros que tinham, para além da função de entreter, o desígnio de funcionar como uma “agência de viagens”, que lograva maravilhar os leitores com novos lugares e costumes. O policial não foge à regra.
Muitos defendem que terá sido Edgar Allan Poe a escrever o primeiro romance policial quando, no início da década de 1840, publicou “Crimes na Rua Morgue”. Aproveitando esse balanço, autores britânicos como Agatha Christie ou Arthur Conan Doyle transformaram personagens como Hercule Poirot ou Sherlock Holmes em habitantes usuais no imaginário de todos.
A febre do policial alastrou-se um pouco por toda a Europa e, o estilo da narrativa, ganhou milhões de adeptos que sonhavam com as aventuras de detetives e comissários de polícia que tinham, na intuição e lirismo, as suas melhores armas. A escrita destes romances era outra das vantagens deste novo “estilo” pois, ao invés de recorrer a linguagens mais elaboradas e barrocas, serviam-se de um discurso simples e direto, captando de imediato a atenção do leitor.
Já no terceiro quartel do século XX, o sucesso destes livros fez com que várias cadeias televisivas arriscassem passar para o pequeno ecrã as aventuras do Holmes, Poirot ou Maigret, entre outros, sendo que a aceitação dos espetadores era crescente. O policial passou a integrar o ADN cultural, por exemplo, dos britânicos, que reclamavam para si o mérito do género.
Mas o fenómeno era global e, um pouco por todo o mundo, surgiam novos personagens sedentos por vencer o crime. Se da Grã-Bretanha saiam académicos e pensadores como Holmes e Poirot, os norte-americanos Raymond Chandler ou Dashiell Hammett criavam homens à beira do colapso pessoal, como Philip Marlowe ou Sam Spade. Não querendo ficar atrás, o checo Josef Skvorecky fez nascer o inspetor Burovka, o italiano Camilleri deu vida a Montbalbano e Mankell imaginava Wallander, um melancólico polícia sueco que exponha as mudanças da própria sociedade.
A própria conjuntura política da Europa ajudou a fomentar o género policial. Na ressaca da Segunda Grande Guerra, vários autores regressaram ao passado recente e países como a Holanda, Itália, Alemanha, França e Inglaterra tentavam esclarecer dúvidas do conflito através de intrigas policiais internacionais, que faziam repensar a natureza da guerra enquanto jogo de xadrez à escala global.
Romance policial nórdico
A fuga ao banal
Paulatinamente, o romance policial foi ganhando o epíteto de género menor dentro da própria literatura. A banalidade encontrada em milhares de romances de natureza criminal era agora um incentivo para a fuga dos leitores do género. Era precisa e urgente uma nova visão.
Com uma cultura necessariamente diferente do resto da Europa, os escandinavos têm um passado que evocava uma longa tradição de sagas repletas de ação e conquista sanguinárias, assim como uma paisagem única que absorve dos contextos gélidos a esperança de um calor interior, muitas vezes conferido pelo fervor de uma escrita singular.
E terá sido essa estranheza – essa nova linguagem – que provocou, numa primeira abordagem, uma barreira à aceitação dos autores nórdicos por parte do mainstream europeu. 

Os contornos obscuros da narrativa de alguns autores serviu de tampão cultural e mesmo Stieg Larsson teve grande dificuldade em publicar “Os Homens que Odeiam as Mulheres”, o primeiro volume da saga Millenium. 

Os editores britânicos, por exemplo, chegaram mesmo a ponderar não editar mais obras de escritores como Indridason, pois as fracas vendas que os seus primeiros livros revelavam criavam entraves financeiros. Os nomes complicados dos personagens e a nomenclatura regional afastavam os leitores mais “preguiçosos”.
Cientes da importância crescente da globalização, alguns autores escandinavos perceberam que tinham de mudar as perspetivas da sua escrita. O apelo à universalidade, ainda que sem apagar vestígios próprios inerentes à sua cultura, começou a registar-se nos romances policiais naturais da Suécia, Dinamarca e países vizinhos e, alguns autores, decidiram recolocar o leitor face a geografias e conceitos desconhecidos.
A interconetividade começou a ser real e, autores como Nesbo e Indridason, colocaram nos seus livros mapas das cidades onde a narrativa tinha lugar, ou faziam a descrição de acontecimentos e tradições culturais muito localizadas – como é o caso da cozinha tradicional.
Por sua vez, Mankell foi um dos autores que conseguiu a proeza de regionalizar a ação. Assim, um crime horrendo numa pequena cidade como Ystad, na Suécia, atrai consideravelmente mais atenção que um delito na gigantesca Nova Iorque. Os pormenores, o sal de qualquer trama, ganhavam o desafio perante a banalidade da grandeza.
Os personagens também cresciam e assumiam contornos muito claros e distintivos. Ainda que resistissem personagens à imagem de Marlowe e Spade, surgiam novos desígnios. 
Se em “Smilla e os Mistérios de Neve”, de Peter Hoeg – para muitos o primeiro grande thriller da nova vaga dos policiais nórdicos -, ficamos a conhecer Smilla Jasperson, uma especialista em propriedades físicas do gelo, Stieg Larsson presenteou todos com Lisbeth Salander, uma jovem socialmente inadaptada, tatuada e repleta de piercings que assume a função de investigadora cyber-punk especialista em informática. 
Ambas mulheres, ambas “não-polícias”, ambas absolutamente fascinantes. 
Pelo meio, surgem advogadas a resolver crimes, padres que ajudam na descoberta de mistérios insondáveis e hipnotistas que procuram na sua arte a razão de assassinatos brutais.
Romance policial nórdico
A reinvenção do crime
Para além das referidas inovadoras filosofias e perspetivas dos romances, os autores nórdicos dinamizaram também o género noir. Ao contrário de autores que mantém as linhas mais tradicionais de contar a sua história e de desvendar o crime, tal como muitos dos seus antecessores fizeram ao longo de décadas, Nesbo, Larsson, Mankell e comparsas extravasam esse conceito.
Ainda que Perry Mason, Ellery Queen ou Alex Cross sejam exemplares na sua luta contra o crime, qualquer destes personagens não tem a profundidade e a riqueza de Wallander, Harry Hole ou Mikael Blomkvist. 
Ao contrário de algum distanciamento entre criminoso e investigador, obras como a trilogia “Millenium” ou livros como “Pássaro de Peito Vermelho” ou “O Homem de Pequim” levam o detalhe ao limite, mostram veracidade e brutalidade nos crimes que são, na sua essência, viagens ao interior de nós próprios, ao limite da racionalidade do ser humano, percursos a lugares que nos estão bem próximos.
Ainda assim, apesar de todas estas ou outras variadíssimas razões, o sucesso global desta escrita viking suscita algumas dúvidas. Será que esta fórmula tem capacidade de ser reinventar depois de esgotada? Conseguiram os autores nórdicos suplantar eventuais imitações de falsas heroínas inspiradas em Salander? Ou será esta onda motivo de transcendência para outros escritores? 
A palavra está do lado do leitor.
E, pegando nessa questão, deixamos aqui um desafio a quem nos lê. Digam-nos quais os autores e obras policiais de origem nórdica que mais os satisfizeram, quais as maiores desilusões, se elas existiram, e que títulos recomendariam. Digam de vossa justiça e evitem o crime do silêncio.
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