terça-feira, 28 de junho de 2016

"La Notte Brava" mostra a noite selvagem de jovens proletários em busca de vida e sonhos na Roma do 'milagre econômico'! - Marcos Doniseti!

"La Notte Brava" mostra a noite selvagem de jovens proletários em busca de vida e sonhos na Roma do 'milagre econômico'! - Marcos Doniseti! 
Franco Interlenghi (Gino Bellabella) e a bela Anna Maria Ferrero (Nicoletta) em cartaz do excelente 'La Notte Brava', filme de Mauro Bolognini, que dirigiu vários filmes clássicos na era de ouro do grande cinema italiano. 
'La Notte Brava' ('A Noite Selvagem') é, com certeza, um dos melhores filmes deste ótimo cineasta italiano, Mauro Bolognini, que dirigiu outros filmes muito bons, como 'La Giornata Balorda' (1960), 'La Viaccia' (1961) e 'Senilità' (1962). 

Como se percebe, os seus melhores filmes foram todos realizados nos anos 1960, na Era de Ouro do Cinema italiano. 

O roteiro do filme foi baseado em um pequeno livro de Pier Paolo Pasolini, 'Ragazzi di Vita' ('Meninos da Vida'), que também escreveu o roteiro, junto com Jacques-Laurent Bost. 

A fotografia, a trilha sonora, o excelente roteiro e a ótima atuação dos atores são alguns dos destaques deste excelente filme de Mauro Bolognini. 

A história do filme é relativamente simples e trata de um grupo de três amigos de origem humilde e proletária (Ruggero, Scintillone e Gino Bellabella) que saem pela noite de Roma a fim de desfrutar da vida com a máxima intensidade. E é claro que eles irão passar por inúmeras situações perigosas e emocionantes, até porque nenhum deles trabalha e vivem todos de pequenos roubos, revendendo o produto dos mesmos para receptadores. 

E assim eles irão se envolver com prostitutas, receptadores, três jovens amigos, típicos 'rebeldes sem causa' que fazem parte da rica burguesia romana, bem como frequentadores abastados e mais velhos de sofisticados night clubs, entre muitos mais que vivem e desfrutam da vida noturna da capital da Bota. 
Gino (dirigindo o carro), Supplizia e Ruggero aproveitam uma parte do sonho que a vida noturna de Roma de 1960 oferece. 
A trama do filme se desenvolve numa época, 1959/60, em que a Itália estava vivendo o seu 'boom econômico', que atravessaria toda a década de 1960, chegando até 1973, quando foi interrompido pelo primeiro 'Choque do Petróleo'. Entre 1951-63 o PIB italiano cresceu à media anual de 5,8% e entre 1964-73 a expansão foi de 5% ao ano, em média. 

Assim, a Itália, bem como todo o Ocidente capitalista, viveu aquele período que foi definido pelo historiador britânico Eric Hobsbawm como a 'Era de Ouro' do Capitalismo, que durou da adoção do Plano Marshall (1948) até o primeiro 'Choque do Petróleo' (1973), ou seja, 25 anos. 

Além do 'Plano Marshall', a criação da OTAN, a Guerra da Coréia, a criação do MCE (Mercado Comum Europeu) e a Guerra do Vietnã também contribuíram fortemente para que tivéssemos esse longo processo de crescimento econômico do mundo capitalista desenvolvido, incluindo a Itália. 

Tal expansão transformou radicalmente o cenário econômico, social e cultural da Itália, que passou da condição de um país predominantemente atrasado, pobre e rural para a condição de uma das grandes potências industriais do mundo, chegando a integrar o G-7. 

Mas na época em que o filme foi produzido (1959) ainda se mostra um resquício das desigualdades sociais e da pobreza que existia na Itália e que aumentou bastante em função do envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial. Nesta, a Itália entrou na Guerra ao lado da Alemanha Nazista (Junho de 1940) e passou para o lado dos Aliados em Julho de 1943, após derrubar o ditador Mussolini. Mas somente em Abril de 1945 é que os nazistas foram expulsos do país em caráter definitivo. 
Gino, Ruggero e Scintillone discutem a respeito de como irão se desfazer das armas que roubaram, pois enfrentam dificuldades para conseguir vendê-las. 
A aventura começa com dois dos três amigos, Scintillone e Ruggero, que procuram por duas prostitutas (Anna e Supplizia), que pretendem usar como um disfarce para poder repassar o produto do seu roubo. Acompanhados das mesmas, eles vão até a casa de um receptador de produtos roubados, Mosciarella, mas o mesmo não se compromete a comprar nada da dupla naquele momento, pois a sua esposa acabou de falecer (e ele tem que, pelo menos, fingir que está triste com a morte da mesma, como o faz na cara-dura). 

No funeral, porém, eles conhecem outro vigarista, Gino 'Bellabella' (sobrinho de Mosciarella) que se apresenta como alguém que poderá levá-los a comprar os 'produtos' que a dupla roubou (armas) e que, desta maneira, se junta à dupla. Porém, Gino fracassa, já que o seu comprador não tem dinheiro para nada. 

Mas uma das garotas, Anna, fala que conhece alguém que poderá comprar os produtos do roubo e os leva até a casa de um 'surdo-mudo' que, naquele momento, se faz acompanhar de outra prostituta, Nicolleta. Eles conseguem vender as armas (por 100 mil Liras) e ficam de dividir o dinheiro entre si posteriormente. Além disso, o trio de marginais combina de se divertir com as garotas e, depois, pegar o dinheiro, e largá-las no meio do mato, abandonando-as. 

Mas ao levar as três belas garotas (Anna, Supplizia e Nicoletta) para um passeio no meio de uma mata, eles acabam tendo o dinheiro roubado por uma delas. Embora eles voltem ao local (a avenida Lungotevere, local onde as prostitutas se reúnem à espera dos clientes) onde as pegaram (Anna e Supplizia). Mas é claro que eles não vão encontrá-las ali tão cedo. 
Supplizia e Anna, no banco de trás. Se pudessem, elas teriam uma outra vida, sem que fosse necessário se prostituir. Mas o 'milagre econômico' e a riqueza não são para todos. 
Próximo ao local, eles vêem um belo carro, 'dando sopa', e se aproximam do mesmo para tentar roubar uma câmera que está dentro do mesmo, mas os três amigos burgueses acabam chegando antes que o roubo acontecesse e os seis 'marmanjos' iniciam uma briga ali mesmo. 

Porém, ao ouvir a sirene de um carro da Polícia, entram todos no carro, combinando de irem até um local isolado para dar continuidade à briga. Moretto, o dono do carro, diz que valentões como Ruggero, Gino e Scintillone agradam muito a ele e aos amigos, sugerindo que preferem ter relações com homens e não com mulheres. 

Diálogos e situações como essa não surpreendem quando se sabe que o roteiro do filme foi escrito por Pasolini e que o mesmo foi baseado em um romance de sua autoria. 

Num local da periferia de Roma, a pobreza italiana volta a dar as caras, e três adolescentes vivem de pegar qualquer coisa de valor que possa, depois, ser revendida. No caso, era uma parte da asa de um avião inglês da época da Segunda Guerra Mundial que os garotos roubaram de um depósito para, depois, vender a um ferro-velho. O burguês rico, Moretto, dá mil liras para cada um dos meninos e eles vão embora. E a briga entre os jovens acaba sendo cancelada e eles decidem curtir a noite juntos. 

Depois, eles acabam indo a um bar, onde brigam com alguns dos presentes, de forma gratuita, apenas para extravasar as emoções e usar um pouco da adrenalina. 

Mais adiante, eles acabam, acidentalmente, encontrando Nicoletta e cobram a devolução do dinheiro, que ela diz que não está com ela, pois foi deixada para trás por Anna e Supplizia. Como represália, eles jogam alguns baldes de água nela e vão embora. Depois, doam sangue em uma praça. 
O diretor Mauro Bolognini, a bela atriz Elsa Martinelli (Anna) e Pasolini nos sets de filmagem de 'La Notte Brava'. 
Os seis jovens com excesso de adrenalina acabam indo para a casa de Moretto, onde ficam ouvindo música, comem, bebem e ficam entendiados, sendo que há uma troca de olhares um tanto quanto insinuante entre o dono da casa e Scintillone, depois que este pediu dinheiro emprestado a Moretto. O filme, evidentemente, não mostra, mas 'fica no ar' a hipótese de que Scintillone teria prestado algum tipo de favor sexual a Moretto em troca daquele dinheiro que lhe foi 'emprestado'. 

Enquanto isso, Ruggero resolver passear pela mansão e acaba encontrando uma belíssima jovem, Laura. Esta é interpretada pela jovem, loira e linda atriz francesa Mylène Demongeot, uma das mais belas atrizes da história do Cinema e que transpira uma impressionante, e absolutamente natural, sensualidade nesta bonita sequência do filme. Laura literalmente enfeitiça e seduz Ruggero (que demonstra invejar a riqueza na qual ela vive), que não resiste aos encantos da jovem e bela blondie. 

E para melhorar ainda mais esta bela sequência, Laura também demonstra possuir um irresistível ar de mistério, pois ficamos sem saber, de fato, se ela se chama, mesmo, Laura, ou se ela é irmã, prima, namorada ou apenas uma amiga de Moretto.

E mesmo sem que saibam qualquer coisa a respeito um do outro, eles acabam trocando beijos, abraços e carícias. Depois de um certo período de tempo, vemos Ruggero sair do quarto, enquanto ajeita as suas roupas, deixando claro que a noite entre ele e a linda, sensual e loira Laura foi bem quente. 
Na mansão de Achille Moretto, o trio de jovens proletários desfruta um pouco da vida de sonhos e riqueza da burguesia italiana. 
Assim, o filme, mesmo sem mostrar nenhuma cena de sexo, acaba deixando bem claro que estes jovens estão sabendo desfrutar da vida, sim, cada um do seu próprio jeito. 

E Gino Bellabella empurra Ruggero, correndo, gritando para que saiam dali imediatamente, pois ele conseguiu roubar uma carteira cheia de dinheiro de um dos jovens burgueses. Já fora da mansão, há uma discussão entre os três jovens ladrões, sobre como se dará a divisão do dinheiro. E com isso, Ruggero e Gino brigam. A carteira cai no chão e quando Ruggero olha, após derrubar Gino, e vê que Scintillone pegou a carteira com o dinheiro e foi embora de táxi. 

São os jovens pobres proletários brigando pelas migalhas que tiraram dos ricos... É evidente que para a família de Moretto aquele dinheiro não fará nenhuma falta. 

Desigualdades, pobreza, marginalidade, prostituição, roubos, adrenalina, aventura, sonhos, sexo... É a realidade italiana da época do 'milagre econômico' sendo exibida nas telas do Cinema e alcançando um grande sucesso, comercial e de crítica. Este é um período de ouro, em que a arte e a vida alimentavam-se mutuamente. 

Excelentes filmes, verdadeiros clássicos, eram lançados todos os anos por cineastas geniais como Mauro Bolognini, Pier Paolo Pasolini, Federico Fellini, Valerio Zurlini, Michelangelo Antonioni, Ettore Scola, Mario Monicelli, Francesco Rosi, Dino Risi, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Marco Bellocchio, Bernardo Bertolucci e Luchino Visconti. 
A bela e misteriosa Laura enfeitiça e seduz Ruggero, que não resiste aos encantos dessa jovem sexy, linda e loira.
Eram verdadeiros artistas, que produziram o melhor Cinema do mundo durante, no mínimo, 20 anos consecutivos. 


Essas diferenças de classe e a maneira como isso afeta as relações entre as pessoas são um tema presente no cinema italiano desta época , bem como a ascensão econômica e social de parte da população, mas sem que isso tenha eliminado as desigualdades sociais e a pobreza no país. 

Scintillone vai até a periferia de Roma e conversa com uma mulher, para quem pergunta a respeito de Rossana. A mulher sugere que esta começou a se prostituir, mas Scintillone não se surpreende com o fato, encarando-o com uma certa naturalidade, pois sabe da pobreza em que ela vive. 

Scintillone procura por Rossana e a encontra com Eliseo, namorado dela. Dança com ela e a convida para sair pela noite de Roma, a fim de curtir a vida, de desfrutar um pouco daquilo com que eles tanto sonham e que somente os ricaços e bem nascidos tem acesso. Ela aceita e eles combinam de sair depois que ela se livrar de Eliseo. 

Enquanto isso, Ruggero pega uma carona de moto para ir atrás de Scintillone, a fim de recuperar o dinheiro que Gino havia roubado. 
Scintillone, jovem marginal proletário que vive de pequenos roubos, oferece uma noite de sonhos para Rossana, uma bela jovem, também proletária, e que já está começando a se prostituir para poder melhorar de vida.
Scintillone e Rossana começam a curtir a noite de Roma e vão a um local frequentado por ricaços, onde são esnobados e expulsos, tratados como se fossem lixos, pois são de uma classe social 'inferior'. Ele quer ficar, porque diz que tem dinheiro. Mas ele não entende que ali não é um local apenas para quem tem dinheiro, mas para quem tem 'berço', 'família', 'um nome a zelar'. Ele arruma confusão e acaba sendo preso pela Polícia. Daí, Ruggero chega e fica com o dinheiro que Scintillone havia roubado de Gino. 

Ruggero convida Rossana a fim de sair para curtir a vida juntos. Afinal, ele também quer a sua parte do sonho. Assim, ele a leva para dançar e depois para um restaurante caro, que já está fechando, totalmente vazio, mas ele paga para comer e ouvir música, vivendo aquela noite como se ambos fossem ricos. Eles dançam e sabem que aquela realidade não irá durar e que no dia seguinte eles estarão de volta à pobreza e à vida dura de sempre. Mas eles não se preocupam com isso e querem aproveitar cada momento, nem que isso aconteça apenas uma vez por ano. 

Eles voltam para casa, Ruggero paga o táxi e joga fora a última nota de mil liras que havia sobrado daquela noite de sonho que vivenciou. 

Fim.
Depois da prisão de Scintillone, será a vez de Ruggero e Rossana aproveitarem, juntos, da agitada vita noturna de Roma. Mas eles sabem que no dia seguinte voltarão à dura vida de sempre. 
Informações Adicionais:

Título: La Notte Brava ('A Noite Selvagem'; no Brasil, o filme foi traduzido como 'A Longa Noite de Loucuras'); 
Diretor: Mauro Bolognini;
Roteiro: Pier Paolo Pasolini e Jacques-Laurent Bost (baseado em um romance de Pier Paolo Pasolini, 'Ragazzi di Vita' - 'Meninos da Vida');
Duração: 91 minutos;
Ano de Produção: 1959;
País de Produção: Itália e França;
Música: Piero Piccioni;
Fotografia: Armando Nannuzzi;
Elenco: Rossana Schiaffino (Rossana); Elsa Martinelli (Anna); Laurent Terzieff (Ruggero); Jean-Claude Brialy (Scintillone); Anna Maria Ferrero (Nicoletta); Franco Interlenghi (Gino Bellabella); Tomas Milian (Achille Moretto); Antonella Lualdi (Supplizia); Mylène Demongeot (Laura); Maurizio Conti (Pepito); Piero Palmisano (Surdo-Mudo); Franco Balducci (Eliseo); Mario Meniconi (Mosciarella); Marcella Valeri (Mãe de Rossana). 
Prêmio: Melhor história original do Sindicato Nacional de Críticos de Cinema da Itália em 1960.

Link: Informações sobre o filme: 

http://www.imdb.com/title/tt0051469/?ref_=fn_al_tt_1

Trailer do Filme: 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

'Sbatti il Mostro in Prima Pagina': Filme de Marco Bellocchio mostra que Grande Mídia é um esgoto a céu aberto! - Marcos Doniseti!

'Sbatti il Mostro in Prima Pagina': Filme de Marco Bellocchio mostra que Grande Mídia é um esgoto a céu aberto! - Marcos Doniseti! 
O genial cineasta italiano Marco Bellocchio realizou aquele que é, com certeza, o melhor filme da história do Cinema sobre o funcionamento de um grande veículo de comunicação em sociedades capitalistas, demonstrando como a mídia realmente atua nas mesmas.
'Golpeando o Monstro na Primeira Página', de Marco Bellocchio, é um filme bastante didático sobre como funciona, de fato, a Grande Mídia em uma sociedade capitalista.

Nas grandes empresas de comunicação, os interesses de classe dos donos dos jornais, revistas, redes de rádio e TV, entre outras mídias, são muito mais importantes do que informar corretamente a população. Com isso, eles acabam deixando de lado aquela que seria a missão fundamental de uma imprensa séria e honesta, que é a de informar corretamente população, sem quaisquer distorções, mentiras, falsidades ou invenções. 

No Brasil, em especial, não faltam veículos de comunicação que funcionam exatamente como o 'Il Giornale' ('O Jornal'), que é mostrado no filme de Bellocchio. 

Quem assistir ao filme e, depois, ler alguma revista semanal de informação ou algum dos grandes jornais diários brasileiros acabará comprovando esse fato. 

Desta maneira, em 1972, o excepcional e extremamente talentoso cineasta italiano Marco Bellocchio fez aquele que é, provavelmente, o mais revelador e devastador filme a respeito de como a Grande Mídia produz, manipula, distorce e divulga as notícias, com o objetivo de se transformar em protagonista dos acontecimentos. 

Atuando desta maneira, os proprietários dos grandes veículos de comunicação podem atingir os seus objetivos, que são de natureza comercial, sim, mas que também possuem um caráter nitidamente classista, e tal postura reflete a sua visão política e ideológica a respeito da realidade. 

Logo, Bellocchio demonstra, de forma clara, a maneira como um grande veículo de comunicação funciona e que o papel do mesmo vai muito além de se limitar a divulgar os acontecimentos, desempenhando também a função de participar do seu processo de criação, visando manipular a população, de maneira a poder conduzi-la na direção que interessa aos seus proprietários, que são, é claro, membros da Grande Burguesia. 
Cena que mostra manifestação direitista e anti-comunista e que abre o filme de Bellocchio. A Itália dos anos 1960-1970 tinha muitas organizações extremistas, tanto de Direita, como de Esquerda. Elas promoveram inúmeros atos violentos durante toda a década de 1070 e os conflitos entre as mesmas eram frequentes, o que resultou na morte de quase 2 mil pessoas no país entre 1969-1981.
O filme de Bellocchio é uma verdadeira e fantástica aula, bem didática, de como esse processo de manipulação se desenvolve. 

Até mesmo Joseph Goebbels é citado no filme, na sua famosa afirmação (feita por Bizanti, diretor de redação do 'Il Giornale') de que as massas são, em outras palavras, muito burras e é preciso se utilizar de uma linguagem bem simples, a fim de que elas possam compreender a mensagem que lhes é transmitida pela imprensa/mídia.

A história do filme se desenvolve em torno do estupro e assassinato de uma jovem estudante (Maria Grazia Martin) que é filha de um respeitado professor universitário (Italo Martini), sendo que o trágico fato ocorre faltando poucos dias para a realização de uma importante eleição, que será disputada pelos mais importantes partidos políticos da época (Partido Comunista Italiano, Democracia-Cristã, Partido Socialista Italiano, Social-Democrata, Liberal, entre outros).

A partir daí veremos como este fato será devidamente manipulado e distorcido pelo diretor de redação, Bizanti, de um grande jornal diário ('Il Giornale') a fim de tentar responsabilizar um militante de Extrema-Esquerda pela morte e estupro da jovem e, desta maneira, poder beneficiar aos partidos mais conservadores, principalmente ao Democrata-Cristão. 

O protagonista do filme, Bizanti, é interpretado de forma brilhante, como sempre, pelo absurdamente fantástico ator Gian Maria Volontè, que dá outra aula de interpretação, o que era comum nos filmes dos quais participava. 

Para confirmar isso, sugiro que vocês também assistam a outros filmes fundamentais desta verdadeira Era de Ouro do Cinema Italiano, como foram os casos de 'Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita' (de Elio Petri, 1970), 'A Classe Operária Vai ao Paraíso' (de Elio Petri, 1971) e 'O Caso Mattei' (de Francesco Rosi, 1972). 
No filme de Bellocchio, 'Il Giornale' é um diário direitista e de grande circulação que manipula as notícias de forma descarada, visando jogar a população contra as organizações de Esquerda e, assim, poder beneficiar as forças políticas mais conservadoras. Ué, será que estou falando sobre a Grande Mídia do Brasil atual? 
Assim, Bizanti é um inescrupuloso diretor de redação de um jornal de grande circulação (500.000 exemplares diários), chamado 'Il Giornale' ('O Jornal). No caso do filme de Bellocchio, vemos como funciona, no dia-a-dia, este jornal, nos mínimos detalhes, desde a apuração do fato, passando pela maneira como este é manipulado, distorcido e, finalmente, divulgado para o grande público, para as massas.

E fica claro que estas massas são inteiramente desinformadas de como tudo isso se dá, demonstrando não suspeitar o quanto este processo é viciado, e está intimamente conectado aos interesses políticos, econômicos, ideológicos e comerciais de setores poderosos do Estado e da Sociedade (os donos do jornal; o governo; a polícia; partidos políticos conservadores).

Há uma cena, inclusive, na qual Bizanti crítica e ridiculariza a sua própria esposa, que ao vê-lo comentando sobre a morte de uma estudante, adolescente, na TV, faz inúmeros elogios ao marido. No entanto, o próprio Bizanti a deixa perplexa quando fala que o discurso dele, feito para o grande público, é totalmente diferente da sua verdadeira forma de pensar. Fica claro que ele considera que a sua esposa é mais uma integrante das massas desinformadas que não fazem a menor ideia de como se dá o processo de produção da notícia, ou seja, ela não passa de uma 'midiota'. 

Bellocchio também deixa claro que tudo isso está intimamente relacionado a um processo político, social e histórico que já foi devidamente analisado e desvendado por Marx, Engels, Lenin, Gramsci, entre outros teóricos de grande importância, que é a Luta de Classes. 
O 'Lotta Continua' foi um importante movimento político de Extrema-Esquerda que desempenhou uma atuação importante na Itália dos anos 1970, chegando a possuir cerca de 20 mil militantes, bem como um jornal próprio. O movimento recusava-se a participar de eleições. No filme de Bellocchio, o jovem Mario Boni, que é falsamente acusado pela morte de Maria Grazia, é um integrante do movimento. 
No filme, há um diálogo antológico entre Bizanti e Roveda, o melhor jornalista do diário, que confronta o diretor de redação a respeito de toda a manipulação que o jornal está fazendo a respeito da morte da adolescente (Maria Grazia) e no qual essa conexão entre a maneira como as notícias são produzidas e divulgadas e os conflitos de classe existentes na sociedade estão intimamente relacionados. 

Em outro momento do filme também temos um diálogo no qual o dono do jornal, Montelli, e Bizanti também conversam a respeito de como se poderia manipular a morte da jovem, Maria Grazia, de maneira a beneficiar os Democrata-Cristãos e a prejudicar a Esquerda nas eleições que estão prestes a se realizar. 

Bellocchio também estabelece, em seu genial filme, uma clara conexão entre a realidade política e social italiana do período, na qual os conflitos de rua entre membros de grupos de Extrema-Direita, de Extrema-Esquerda e a polícia italiana eram praticamente diários, e a maneira como a Grande Imprensa os relatava, sempre procurando tomar partido dos interesses do proprietário do jornal, ou seja, da classe capitalista. 

Em uma cena na qual jovens militantes de extrema-esquerda atacaram a sede do 'Il Giornale', Bizanti se preocupa muito mais em tirar uma foto do fato e que será publicada pelo jornal no dia seguinte, mostrando fogo no local, do que em apagar o mesmo. 

Entre o final dos anos 1960 e início da década de 1980 (1969-1981), a Itália viveu um período extremamente turbulento, durante o qual todas as forças políticas e sociais organizadas entraram em choque diariamente, por meio de greves, protestos, manifestações, atos terroristas. 

E no filme de Bellocchio, como o 'Il Giornale' adotava posições políticas conservadoras, de maneira a agradar às classes média e burguesa do país, o mesmo sempre adotava um viés bem mais direitista na forma de divulgar as notícias, distorcendo-as na cara-dura. 
Na redação do 'Il Giornale', Bizanti mostra para Roveda como é possível publicar uma notícia terrível, a respeito da situação social do país, sem assustar os leitores conservadores e de classe média da publicação. 
Extremamente didática, neste sentido, é uma cena na qual Bizanti dá uma bronca em Roveda, pois este havia escrito uma matéria a respeito de um trabalhador, desempregado e pai de cinco filhos, que comete suicídio. Bizanti mostra a Roveda como é possível divulgar um fato tão trágico quanto esse de maneira a não assustar aos leitores conservadores e de classe média do 'Il Giornale', dando uma verdadeira aula de como é possível manipular o processo de criação e de divulgação da notícia. 

Também fica nítida, no filme de Bellocchio, a maneira como o diretor de Redação, Bizanti, procura usar e manipular uma mulher, Rita Zigai, que enviou uma carta para 'Il Giornale' dizendo que tinha informações a respeito da morte de Maria Grazia. 

Bizanti não se faz de rogado e vai até a casa de Rita, entrando na mesma sem nem ao menos pedir licença, agindo de forma arrogante com a velha mulher. Ele procura obter mais informações, com Rita, a respeito do caso da morte da jovem, mas ela resiste a falar qualquer coisa, lhe dizendo que havia se arrependido de ter enviado a carta. 

Com o desenvolvimento da trama, Bizanti fica sabendo que Rita é amiga de militantes de Extrema-Esquerda, incluindo Mario Boni, um jovem com quem Maria Grazia teve um namoro rápido (hoje o termo usado seria 'ficar'). Bizanti usa de seus contatos com o Comissário de Polícia, que manda prender e torturar Mario Boni, para que o mesmo confesse o crime que resultou na morte de Maria Grazia. 
Gian Maria Volontè tem mais uma brilhante atuação neste excepcional filme de Marco Bellocchio. Sua interpretação é digna de aplausos exaustivos, sem dúvida alguma.
E é claro que o manipulador e inescrupuloso Bizanti faz o maior sensacionalismo, mesmo com Rita tendo se recusado a lhe passar maiores informações sobre o caso. Indignada, esta vai até o jornal para tirar satisfações com Bizanti, mas fica arrasada quando o mesmo lê um falso depoimento, que obteve junto à Polícia, no qual Mario Boni teria feito inúmeros ataques pessoais à Rita, ridicularizando-a totalmente.

Mario Boni havia prestado um depoimento à Polícia, no qual foi barbaramente espancado, e no mesmo disse que, na hora da morte de Maria Grazia, ele estava participando de uma reunião junto com outros integrantes do movimento do qual participava intensamente, o 'Lotta Continua'.

Obs1: O 'Lotta Continua' não é invenção de Bellocchio. Ele foi o maior e mais ativo movimento político de Extrema-Esquerda que atuou na Itália a partir do final dos anos 1960, tendo chegado a possuir cerca de 20 mil militantes. Seus integrantes conseguiram ter uma relevante penetração junto aos movimentos sociais do período (estudantil, operário, intelectuais) mas eles se recusavam a participar das eleições. 

Assim, Rita acaba sendo manipulada por Bizanti e concorda em prestar um falso depoimento à Polícia, no qual procura culpar Mario Boni pela morte de Maria Grazia, dizendo que o mesmo não estava na reunião do movimento no momento em que a jovem havia sido morta. 
O Diretor de Redação do 'Il Giornale', Bizanti, manipulou as notícias de forma descarada, com o objetivo de publicar informações que jogassem a população contra as forças de Esquerda, procurando culpar Mario Boni (integrante do 'Lotta Continua') pela morte da jovem, mesmo sem ter qualquer prova de que ele era o responsável pelo crime. Qualquer semelhança com a Grande Mídia brasileira atual não é mera coincidência.
Daí, é claro que Bizanti irá se aproveitar desta situação, que foi criada por ele mesmo, e com a conivência da Polícia, para fazer uma manchete bombástica dizendo que um integrante de um movimento de Extrema-Esquerda era o responsável pela morte de Maria Grazia, de maneira a beneficiar os Democratas-Cristãos nas eleições que se aproximam. 

Desta maneira, Bizanti encarrega todos os principais jornalistas do diário para investigar o suposto envolvimento de Mario Boni e da Extrema-Esquerda na morte de Maria Grazia. Assim, Boni já foi devidamente condenado pela imprensa. Logo, resta apenas encontrar, ou fabricar, se necessário for, os fatos que comprovem que ele cometeu o crime. Apenas um jornalista mais jovem, Roveda, é que irá seguir por um caminho diferente, procurando descobrir o que realmente aconteceu. 

Outra cena que mostra o caráter desonesto da Grande Mídia se dá quando Bizanti envia Roveda para uma entrevista coletiva dos integrantes do 'Lotta Continua' com a missão de fazer uma pergunta provocativa, a fim de fazer com que o jornalista fosse agredido fisicamente pelos integrantes do movimento. 

Na redação do 'Il Giornale', no entanto, a matéria dizendo que o jornalista havia sido agredido já estava pronta, antes mesmo da entrevista ser realizada, mas Bizanti teve que jogá-la fora, para a sua imensa decepção, pois Roveda o informou que não havia sido agredido, mas apenas expulso da entrevista. 
Ingegner Montelli é o dono do 'Il Giornale' e manda Bizanti esconder a verdade da população, ou seja, que Mario Boni não era o culpado pelo estupro e morte de Maria Grazia. 
Percebendo que estava sendo manipulado, Roveda vai até a casa do porteiro da escola, a fim de obter informações a respeito de Maria Grazia, pois ele havia sido informado por alguns estudantes de que ela era bastante namoradeira e tinha um caso com Mario Boni, mas que este não a havia matado. 

No local, Roveda descobre a verdadeira obsessão que o porteiro da escola, onde Maria Grazia estudava, possuía pela jovem e percebe que ele pode ser o assassino da mesma. Porém, ao levar as informações que descobrira para Bizanti, esse o demite do jornal. 

Mas o próprio Bizanti decide ir até a casa do porteiro e consegue fazer com que o mesmo confesse que era apaixonado por Maria Grazia e que havia cometido o crime, contando em detalhes como é que o mesmo havia acontecido. Assim, confirma-se a inocência de Mario Boni. Mas, ao consultar o dono do jornal, Ingegner Montelli, a respeito da sua descoberta, Bizanti e o proprietário da publicação decidem esconder a verdade da população. 

E no fim vemos a cena de um esgoto a céu aberto... Qualquer semelhança deste com a Grande Mídia não é mera coincidência. 
A última cena do filme resume o que Marco Bellocchio pensa a respeito da Grande Mídia, ou seja, que esta é um verdadeiro esgoto a céu aberto.
Obs2: É inacreditável, mas um filme tão fundamental quanto esse é muito difícil de ser encontrado, mesmo na Internet. É necessário pesquisar bastante para poder assisti-lo. Será que nenhuma empresa se dispõe a lançá-lo em DVD, não? 

Informações Adicionais:

Título: Sbatti il Mostro in Prima Pagina ('Golpeando o Monstro na Primeira Página');
Diretor: Marco Bellocchio;
Roteiro: Sergio Donati e Goffredo Fofi;
Duração: 83 minutos;
Ano de Produção: 1972;
País de Produção: Itália e França;
Elenco: Gian Maria Volontè (Bizanti); Fabio Garriba (Roveda); Laura Betti (Rita Zigai); Jacques Herlin (Lauri); John Steiner (Ingegner Montelli; Publisher do jornal); Jean Rougeul (Editor-Chefe do Jornal); Carlo Tatò (Esposa de Bizanti); Corrado Solari (Mario Boni); Enrico DiMarco (Comissário de Polícia); Silvia Kramar (Maria Grazia Martini); Massimo Patrone (Porteiro da Escola); Gianni Solaro (Italo Martini).

Links:

Informações sobre o filme: 

http://www.imdb.com/title/tt0070641/?ref_=nm_flmg_dr_37

Marco Bellocchio e a sua obra: 

http://inkiostrando.blogspot.com.br/2011/10/tysw-marco-bellocchio.html

A obra Bellocchio a partir de três filmes: 

http://www.contracampo.com.br/72/tresfilmesbellocchio.htm


Nuclei Armati Proletari (NAP):

http://glianni70.it/nuclei-armati-proletari-%E2%88%92-italia/

O Lotta Continua:


http://ojs.fe.unicamp.br/ged/histedbr/article/view/6524
Será que o Gramsci estava errado? 
A Itália nos anos 70:

http://blogln.ning.com/profiles/blogs/a-italia-nos-anos-setenta-1

Proletário Armados pelo Comunismo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Prolet%C3%A1rios_Armados_pelo_Comunismo

O que é Operaísmo italiano: http://uninomade.net/tenda/o-que-e-operaismo-italiano/
A Esquerda italiana nos anos 1970: https://www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ac&id=2317

Carlos A. Lungarzo: Estado italiano usou da tortura contra as Brigadas Vermelhas: http://www.institutojoaogoulart.org.br/noticia.php?id=4342


Enrigo Berlinguer e o Compromisso Histórico: http://www.acessa.com/gramsci/?id=681&page=visualizar
A Extrema-Esquerda pretendia promover uma Revolução Socialista na Itália. Algumas organizações chegaram até a partir para a luta armada, caso das 'Brigadas Vermelhas', do 'Lotta Continua' e da 'Nuclei Armati Proletari' (NAP). Enquanto isso, a Extrema-Direita desejava implantar uma Ditadura no país e também partiu para o uso da violência, promovendo inúmeros atentados terroristas. Este período (1969-1981) entrou para a história italiana com o nome de 'Anni di Piombo' ('Anos de Chumbo'). Cerca de 2 mil pessoas morreram em função desta violência política. 

A autonomia operária na Itália a partir do final dos anos 1960: https://www.nodo50.org/insurgentes/textos/autonomia/06autonomiaitalia.htm

Nas trilhas íngremes da luta armada:


Obs3: A respeito do filme 'Sbatti il Mostro in Prima Pagina', Marco Bellocchio disse o seguinte: "Observando meus filmes, parece-me que todos correspondem a essa ideia de cinema em que a forma prevalece sobre a mensagem, com uma única exceção: Sbatti il Mostro in Prima Pagina (1972), um filme que surgiu num momento peculiar da minha vida, durante o qual o ativismo político privado tornou-se público. 'Sbatti il Mostro...' se ressente dos efeitos do meu engajamento e também da colaboração com Goffredo Fofi, que, diferentemente de mim, foi um intelectual que tomou partido e usou politicamente a sua produção cultural'.

Prudenzi, Angela e Resegotti, Elisa. Cinema Político Italiano – Anos 60 e 70. Cosac Naify. São Paulo. Págs. 146/147. 2006. 

Trecho do filme:

sábado, 18 de junho de 2016

Florestano Vancini: "Le Stagioni del Nostro Amore" mostra a crise existencial e as desilusões da intelectualidade de esquerda italiana nos anos 1960! - Marcos Doniseti!

Florestano Vancini: "Le Stagioni del Nostro Amore" ('Enquanto Durou o Nosso Amor') mostra a crise existencial e as desilusões da intelectualidade de esquerda italiana nos anos 1960! - Marcos Doniseti!  
O belo filme "Enquanto Durou o Nosso Amor" mostra o vazio existencial de uma geração que desejava mudar o mundo, mas que acabou derrotada, pois perdeu as suas referências (políticas, ideológicas, comportamentais, éticas, morais). 
Este é um ótimo, belo e triste filme do excelente diretor italiano Florestano Vancini, que nunca desfrutou da mesma fama e prestígio de Fellini, Visconti, Rossellini ou de Antonioni, mas que fez excelentes filmes, principalmente nos anos 1960 e 1970. 

E tal obra é, com certeza, uma das melhores dessa relação de grandes filmes de autoria de Vancini, que inclui clássicos como 'La Lunga Notte del '43" (de 1960 e que já foi analisado aqui no blog) e o "Il Delito Matteotti" (de 1973). 

Em 'La Lunga Notte del '43", Vancini mostrou uma história de amor que é inviabilizada pelo fascismo e que os responsáveis pelos crimes deste regime brutal acabaram ficando impunes, enquanto que em 'Le Stagione Del Nostro Amore' vemos o vazio existencial e sentimental provocado pela destruição dos mais belos sonhos da juventude do Pós-Guerra, que tentou mudar o mundo, mas que acabou sendo derrotada, muito em função do aburguesamento que atingiu a sociedade. 

Nesta bela obra de Vancini, o ótimo ator Enrico Maria Salerno interpreta, brilhantemente, um jornalista e intelectual de esquerda (Vittorio Borghi), militante veterano do PCI (Partido Comunista Italiano) e que lutou na Resistência anti-fascista, participando ativamente do combate para derrubar o regime ditatorial de Mussolini. 

Porém, ele está passando por um momento de crise existencial, sentimental, familiar, política e ideológica, o que o leva a relembrar e avaliar as decisões que tomou em sua vida e que o levaram à esta situação onde questiona tudo em que acreditou durante toda a sua vida. 
No início do filme vemos que o relacionamento entre Vittorio e Elena chegou ao fim. À medida que a história vai se desenvolvendo, vamos descobrindo os motivos que levaram à separação. 
O filme foi lançado em 1966, numa época em que já se aproximava o fim do 'boom' econômico, que foi uma época de grande prosperidade, que ocorreu na Itália a partir do final dos anos 1950, e que provocou o 'aburguesamento' da sociedade, que é um dos temas centrais do filme de Vancini. 

É bom também chamar a atenção para a bela trilha sonora, de autoria de Carlo Rustichelli, e para a excelente fotografia do filme, feita por Dario de Palma. 

Borghi é casado e tem um filho, mas o seu casamento é de mera conveniência, pois ele não sente absolutamente nada pela esposa já há muito tempo, reconhecendo, para a mesma, que não a amava mais e que, também, era um péssimo pai. 

Além disso, ele diverge das políticas do PCI, em cujos jornais ele trabalha, mostrando que também enfrenta dilemas de caráter político e ideológico, que o levam a abandonar o partido

E para piorar ainda mais a sua crise, Borghi é abandonado pela mulher que ama, a jovem e bonita Elena. Esta é interpretada pela bela atriz francesa Jacqueline Sassard, que atuou em "Estate Violenta" ('Verão Violento', de 1959), de outro genial cineasta italiano, Valerio Zurlini - com quem Jacqueline foi casada - e que interrompeu a sua carreira cinematográfica depois que participou do filme "Les Biches" ('As Corças', de Claude Chabrol, de 1968). Ela se tornou muito popular na Itália a partir do final dos anos 1950, sendo que também trabalhou com outros importantes diretores do cinema italiano, como foram os casos de Alberto Lattuada e Antonio Pietrangeli. 

Elena deseja que Borghi abandone esposa e filho e se case com ela (por motivos que ficarão mais claros posteriormente), mas Vittorio se recusa a agir desta maneira, o que o leva a ser abandonado pela bela Elena, que se cansou de fazer o papel da 'outra' na vida dele. 
O fim da bela história de amor que é vivida por Vittorio e Elena faz com que o primeiro inicie um processo de questionamento a respeito das decisões que tomou em sua vida. 
Assim, Vittorio encara todas as crises possíveis e imagináveis em sua vida de homem de 'meia idade': amorosas, políticas-ideológicas, familiares. 

A fim de tentar entender o que foi que o levou para essa situação de crise sentimental e existencial que enfrenta, o verdadeiro beco-sem-saída em que se meteu, Vittorio volta para a sua cidade natal (Mântua, no norte da Itália, localizada perto de Verona, na região da Lombardia), onde irá relembrar os principais fatos e acontecimentos que o levaram a tomar as decisões que, no fim das contas, desembocaram na crise que ele enfrenta naquele momento. 

De certa maneira, a nevasca que abre o filme e o tom meio 'fantasmagórico' da fotografia do filme antecipa e representa os dilemas existenciais e sentimentais que Vittorio enfrenta em sua vida naquele momento, mostrando ele e Elena juntos, em um trem, mas sem se olharem ou conversarem. 

O clima soturno e silencioso entre ambos é totalmente conflitante com um grupo de jovens que conversam e dão risada o tempo inteiro, mostrando que as preocupações sentimentais e existenciais passam bem longe deles. No final do filme, teremos uma cena um pouco semelhante a esta, mas com resultados bem diferentes. 

O silêncio entre Vittorio e Elena somente é quebrado quando, no carro, em uma rodovia, ela diz que está indo embora, terminando o relacionamento deles. Ela diz: 'O pior não é saber que não voltaremos a nos ver, mas que não eramos feitos um para o outro'. Ela sai do carro e vai embora, em outro veículo. Ele a segue, Elena para o carro na pista, Vittorio vai até lá, pergunta o que ocorre e ela pede que ele não pense mal dela, que o ama e que não se esqueça dela jamais. 

E vai embora...

Quando chega ao seu apartamento, ele sequer vai até o quarto da esposa, Milena, que o procura e discute com Vittorio, ficando claro que ele não a ama mais. Ela diz que ele já havia sido feliz com ela, tendo a amado, e que isso poderia voltar a acontecer, mas ele responde que se sente traído pela vida e que não há como recuperar os momentos de felicidade que já vivenciou e que não há nada que se possa fazer. 
Vittorio volta para a cidade natal, Mântua, na qual reencontra um velho amigo, o comunista convicto Leonardo Varzi, ao qual conhece desde a adolescência e com o qual tem uma longa discussão a respeito dos problemas enfrentados pelo Socialismo que era uma teoria que, antigamente, explicava tudo. 
A esposa sabe do seu caso com Elena, discute com ele e chora, mostrando que ainda o ama, sentimento este que não é correspondido por ele. Ela diz que Vittorio esquecerá de Elena, mas este responde que sente que toda a sua vida foi desperdiçada. Ela pede que ele volte a lhe amar, mas Vittorio não demonstra mais qualquer interesse pela esposa, que explode e grita com ele, dizendo que o odeia e que ele arruinou a sua vida. 

Vittorio também entra em conflito com os responsáveis pela publicação dos jornais do PCI (Partido Comunista Italiano, no qual militava desde a época da Resistência anti-fascista), pelo fato de ser proibido de escrever o que deseja, e por isso decide abandonar o Partido. Isso mostra que aos problemas sentimentais que ele enfrenta também se somam as questões políticas e ideológicas. 

Depois, ele faz as malas e embarca numa viagem que, inicialmente, era sem rumo definido. No meio do caminho, próximo a Bolonha, ele para em um restaurante de beira de estrada e conversa, de madrugada, ao telefone, com Elena (que está em Roma), a quem diz que está indo para Mântua. Mas esta pede que ele não entre mais em contato com ela e sugere que Vittorio reveja os velhos amigos em Mântua e que procure se divertir.

Obs1: Tal como em outros filmes italianos dos anos 1950 e 1960, vemos a marca da 'Esso' (Exxon) aparecer em um determinado momento. Fica a dúvida se isso era algum tipo de merchandising ou se era uma maneira de mostrar e de criticar a grande penetração econômica das empresas multinacionais dos EUA na economia italiana do Pós-Guerra. 

Ele para no meio do caminho e vê um casal se amando em um veículo. 
Na mansão do Conde (em Mântua), que se adaptou aos novos tempos, da modernidade burgusa, e que agora é um banqueiro inescrupuloso que procura eliminar a concorrência, Vittorio reencontra Francesca, um antigo amor. 
Depois, ele chega a Mântua, onde fica instalado em um hotel. Na cidade, ele vai reencontrar velhos amigos e conhecidos, dele e de seu pai (um velho e corajoso militante socialista), lembrando-se de episódios da época da luta anti-fascista, quando fez parte da Resistência, bem como revê um antigo amor, Francesca, com quem poderia ter até se casado. Assim, ele procura nas lembranças da juventude os motivos que o levaram a tomar as decisões que o levaram ao momento de crise pela qual passa naquele momento.  

Vittorio telefona para um velho amigo, Leonardo Varzi, interpretado pelo grande ator Gian Maria Volontè, com quem combina de se encontrar na casa de um Conde. Ele tenta, novamente, conversar com Elena (mas ela não atende ao telefone), enquanto relembra momentos felizes e diálogos que teve com a ex-namorada, na qual Vittório dizia que ela é a única que consegue mantê-lo interessado na vida e que somente quando está com ela é que ele consegue se sentir bem.  

Vittorio sai do hotel, anda pela cidade e vai parar num bar frequentado por velhos militantes comunistas. Um deles o reconhece e diz que conheceu o seu pai, Mario Borghi, um antigo militante comunista que enfrentava os fascistas sem medo. Os velhos militantes cantam e Vittorio se lembra de um episódio em que seu pai, já idoso, foi ofendido por um fascista e ele, Vittorio, o atacou, levando o fascista a fugir do local. 
Em Mântua, Vittorio revê o local onde três membros da Resistência anti-fascista foram mortos em 1945, dois meses antes da Guerra terminar. E diz que eles morreram como heróis e não tiveram a chance de ficarem confusos, que é como ele se encontra agora, levando-o a, de certa maneira, invejar a sorte deles. 
Essa é uma forma dele se lembrar de quando lutava não apenas para defender seu pai, já morto, mas também agia em defesa de uma ideologia na qual, então, acreditava piamente e a respeito da qual, agora, possui muitas dúvidas. 

Na mansão do Conde, que se tornou um banqueiro (forma de citar a mudança pela qual passou a economia e a sociedade italianas, com a substituição da velha nobreza pela burguesia), Vittorio reencontra Varzi e outros antigos amigos de Mântua. 

Varzi (que ocupa um cargo na prefeitura, por ordens do PCI) diz que aquela reunião é tipicamente de Centro-Esquerda e que, talvez, por isso eles fiquem meio deslocados, pois ambos são comunistas, embora a casa do Conde banqueiro seja frequentada por pessoas de todos os segmentos sociais (membros da Igreja, comunistas, prefeito, etc), sugerindo que todos estejam, de uma forma ou de outra, ligados aos interesses da burguesia. Inclusive, um dos frequentadores, Lori, diz que sua esposa não liga que ele saia sozinho, pois todos sabem que ela casou com ele por dinheiro, o que é uma maneira de citar o triunfo dos valores burgueses na sociedade italiana. 

O Conde estranha que Vittorio esteja separado dos demais, pois se recorda que, antigamente, eram todos seus amigos. É que o Conde desconhece a crise pela qual ele passa neste momento. Vittorio está tentando restabelecer contato com as suas raízes (pessoais, familiares, políticas, ideológicas) em Mântua, mas claramente ele não está conseguindo.
Juliette Gréco, cujo penteado Francesca imitava quando, na juventude, era uma existencialista. Mas Francesca preferiu trocar as dúvidas do mesmo por uma boa vida burguesa ao lado de seu novo marido. 

Quando é questionado pelo Conde, um colecionador de arte, a respeito do 'realismo socialista', Vittorio diz que aquela época era muito confusa e que, agora, a confusão é ainda maior, mas que agora eles tem consciência disso, demonstrando a crise política e ideológica pela qual está passando. 

E o Conde confessa que sonha com um mundo no qual as sedes das Igrejas e dos partidos políticos fiquem vazias... É claro, assim ficará muito mais fácil para a burguesia impor os seus interesses às demais classes e segmentos da sociedade, explorando-os sem que exista qualquer tipo de limite. 

Na festa, Vittorio também encontra Francesca, um antigo amor (já casada), e diz que eles mudaram sem se dar conta e quando olham para trás... Daí, ela o interrompe e fala que ele deve tomar cuidado para não lhe acontecer o mesmo que sucedeu com Sara, a mulher de Lot, que olhou para trás e virou uma estátua de sal, enquanto Deus destruía Sodoma e as cidades vizinhas. Ela diz que o verá no dia seguinte e Vittorio volta a se lembrar de momentos felizes que passou ao lado de Elena.

Varzi dá uma carona a Vittorio, à noite, na qual lembram os tempos em que jogavam bilhar, iam ao cinema e discutiam sobre tudo, e Vittorio diz que abandonou o PCI porque não se considera mais um comunista. Eles saem do carro, andam e conversam pelo centro vazio da cidade. 

Varzi questiona Vittorio sobre a sua atitude de sair do PCI, embora admita os erros de Stalin, critique a invasão da Hungria pela URSS, condene as mudanças de política de Kruschev, a ruptura entre a China e a URSS, reconhecendo que todos estes fatos são muito graves. 

Vittorio diz que, no passado, quando eles eram jovens, o comunismo era a doutrina que tinha a capacidade de explicar tudo, mas que agora isso não acontece mais. 

Varzi diz que Vittorio se tornou um sentimental e pergunta porque ele não coloca os pés na terra novamente e Vittorio pergunta 'Para chegar aonde? Aonde eles me levarão?'. 
"Avanti" foi um jornal socialista italiano bastante popular. No filme, o pai de Vittorio, Mario Borghi, entrou em conflito com um fascista quando foi comprar um exemplar do jornal esquerdista. 
E Vittorio completa, falando que o futuro chegou e não é aquele que eles haviam imaginado, mostrando que aquilo pelo que ele, Vittorio, Leo e muitos outros lutaram não se tornou realidade e que o futuro que se aproxima não é dos melhores. 

Vittorio pergunta a Leo se não aconteceria de, um dia, dois povos que seguem uma mesma bandeira (a do socialismo) não poderiam acabar lutando entre si.

Obs2: Essa fala é uma clara referência à ruptura entre China e URSS, que ocorreu no início da década de 1960, e que quase provocou uma guerra entre os dois países, embora ambos se declarassem socialistas. 

Leo diz que isso nunca acontecerá, mas Vittorio não tem tanta certeza disso, fala que inveja a fé do amigo e que seu sofrimento se dá em função de 'outras coisas', referindo-se ao fato de ter sido abandonado por Elena. 

Leo diz que todos sofrem por 'outras coisas', mas que isso não tem nada a ver, ao que Vittorio responde que tem tudo a ver e fala que 'é aí que você está equivocado', mostrando que as suas crises, de caráter sentimental, política e ideológica, estão todas interligadas, dizendo ainda que o amigo, Leo, não mudou nada e que age de forma dura, intrasigente e com o mesmo rigor dos velhos tempos. 

Percebendo que não tem mais nada em comum com o velho amigo (pelo menos no aspecto ideológico), Leo não diz nada, eles entram no carro, e Leo fala que sua esposa é uma puta, que ele tem dois filhos e chora, dizendo que tem que esconder tudo isso, fazendo com que ele se sinta como um cúmplice e que não pode fazer nada. Daí, ele se despede de Vittorio, que fica perplexo, não diz nada, sai do carro e Leo vai embora, mostrando que ele não é tão rigoroso e intransigente quanto Vittorio pensava. 
Cena na qual Vittorio relembra um dos momentos em que viveu, feliz, ao lado da mulher que realmente amava, Elena. 
Daí, Vittorio se lembra de um fato antigo, da época da adolescência, quando um amigo (Nino), filho de um fascista, os convidou para ir comer e beber em sua casa no dia (10/06/1940) em que a Itália entrou na guerra ao lado da Alemanha Nazista e Leo foi o único que teve coragem suficiente para dizer ao pai do amigo que naquela mesma data Giacomo Matteotti (deputado socialista) foi assassinado pelos fascistas (fato que ocorreu em 1924) e que não se intimidou com os gritos do pai de Nino.

Sozinho, Vittorio encontra um amigo (Carlo di Giusti ou Tancredi, que era o seu 'nome de guerra' na época da Resistência) dos tempos da Resistência, quando ambos eram da ''Frente da Juventude", que lutou contra os fascistas. Agora, Tancredi trabalha como um simples guarda noturno e não via Vittorio desde 1945. 

Tancredi conta que foi perseguido pela Justiça no Pós-Guerra em função de ter matado alguns fascistas durante a guerra e que ficou preso durante quase um ano por isso. 

Eles se despedem e Vittorio, sob forte neblina, com o seu carro, visita uma propriedade rural na qual, na época da Resistência, ele, Tancredi (o líder...) e outros membros do grupo fizeram uma reunião na qual discutiram sobre o início de uma insurreição popular armada e que tinha o objetivo de derrubar o governo da República fascista fantoche instalada no norte da Itália e de permitir que, depois, o povo italiano pudesse escolher livremente o tipo de governo que desejava para o país. 

Mas os membros do grupo foram dedurados pela proprietária do local e acabaram perseguidos pelos fascistas, sendo que três integrantes do grupo (Ulderico, Anselmo e Luciano) acabaram morrendo em função disso. Inclusive, Vittorio reconheceu a velha proprietária e há uma placa no local homenageando os três que foram assassinados pelos fascistas. E Vittorio reflete dizendo que a morte fez com que eles morressem como heróis e que isso livrou os três de estarem tão confusos quanto ele e os demais, que sobreviveram à guerra contra o nazi-fascismo. 
Membros do grupo de Resistência anti-fascista se reúnem, em 1945, para planejar uma insurreição armada que irá derrubar o regime fascista fantoche que ainda existia no norte da Itália. Tancredi, com quem Vittorio se encontra quando volta para Mântua, era o líder do grupo. 
Vittorio vai se encontrar com Francesca, dizendo que, anos antes, havia lhe falado que ela tinha o perfil de uma camaleoa, fato do qual ela se lembrou, pois ela possuiria um tipo de beleza diferente para cada momento do dia. Ele diz, também, que a antiga existencialista que usava roupas negras se converteu em uma elegantíssima dama, o que não deixa de ser uma observação interessante a respeito do processo de 'aburguesamento' pelo qual ela passou.

Aliás, a ideia deste 'aburguesamento' das classes sociais é algo que está presente o tempo inteiro neste filme de Vancini, comprovando a fala de Varzi, para Vittorio, quando disse que o banqueiro Conde recebia, em sua mansão, visitas de pessoas que pertenciam a todos os grupos sociais. 

Assim, o filme de Vancini mostra que as ideias burguesas haviam triunfado na sociedade italiano, e que, em função disso, a possibilidade de uma Revolução Socialista vitoriosa é algo que havia ficado no passado. Daí, a crise política e ideológica em vigor, na época, e da qual o personagem de Vittorio é a mais perfeita representação. 

É importante chamar a atenção para o fato de que, em 1964, Bernardo Bertolucci havia defendido uma ideia muito semelhante, no filme "Prima della Rivoluzione" ('Antes da Revolução', que já foi analisado aqui no blog), no qual ele defendia a ideia de que o proletariado havia adotado os valores e os costumes da Burguesia e que, portanto, o mesmo não tinha mais qualquer pretensão de promover uma Revolução Socialista. 
A cidade de Mântua, localizada na Lombardia, norte da Itália, onde se passam os acontecimentos deste belo e clássico filme de Florestano Vancini. 
Francesca diz, para Vittorio, que o seu retorno à Mântua havia decepcionado os seus antigos amigos. Ele concorda com isso e pergunta onde foi parar o fervor, o entusiasmo e a pureza que possuíam na juventude? 

Junto com Francesca, ele visita uma loja de roupas caras que pertence a um ex-secretario e antigo líder do PCI (Olindo Civenini), que era muito poderoso e influente no passado, chegando a liderar manifestações populares que desafiavam a repressão policial. Olindo prosperou bastante como um comerciante nos anos 1960, o que é uma referência clara ao 'boom' econômico que marcou a Itália nessa época, bem como ao aburguesamento dos antigos esquerdistas e das classes sociais do país. 

Para justificar a sua nova posição de burguês, Olindo diz que está convencido de que nada irá mudar na Itália e que isso é demonstrado pelo fato de que os resultados das eleições são sempre os mesmos, com o PCI e a Democracia-Cristã dividindo a maioria dos votos, em partes quase iguais, e com os outros pequenos partidos ficando com a menor parcela. E ele diz, cinicamente, que se tiverem a possibilidade de fazer uma Revolução Socialista, eles a farão... 

Quando ouve isso Vittorio sorri, de forma bem irônica, é claro. 

Já no carro, Francesca pergunta a Vittorio se um deles tinha alguma dívida com o outro e ele diz que não, pois as dívidas já prescreveram depois de todos aqueles anos. Ela diz que não casou com Vittorio devido à sua covardia, fazendo com que ele diga que ela é que corre o risco de acabar como Sara, esposa de Lot. Francesca fala que, no passado, ela era um objeto à venda, à procura da melhor oferta, e que ela estava desorientada, envolta em roupas negras e com cabelo na linha de Juliette Greco, referindo-se ao seu passado de existencialista, é claro. 

Obs3: Juliette Gréco foi uma atriz e cantora francesa que ficou fortemente ligada ao Existencialismo, sendo considerada a musa do mesmo. 

Mas, Francesca confessa que, de fato, suspirava por outras coisas, como uma boa vida, casamento, ou seja, uma vida tipicamente burguesa, enquanto recebia cartas de amor de Vittorio, que havia se mudado para Milão. Porém, ela diz que nunca sentiu por Vittorio o mesmo que este por ela, confessando que quase riu da cara dele quando o mesmo lhe pediu em casamento. Mas quando ele pergunta se o atual marido dela foi a melhor escolha, ela diz apenas que ele é 'uma boa pessoa', reconhecendo que não é feliz com o mesmo. 
Vittorio ouve as explicações de Olindo, um ex-comunista que se tornou um próspero comerciante. Seu personagem simboliza o aburguesamento que ocorreu na Itália dos anos 1960, época do 'boom econômico', e que atingiu várias classes e segmentos da sociedade.
Em certo momento, Vittorio diz que não quer mais recordar dos momentos do passado, quando conseguia amar ou odiar as coisas, da época da 'bela idade', que é a juventude, que é 'a estação das grandes decisões de nossa vida'. Francesca lhe pergunta porque ele não é feliz, se ele conseguiu tudo o que queria, tendo saído de Mântua, se tornado jornalista, se casado, e que estas são as coisas que importam. 

Vittorio diz que não é feliz porque 'nossa estação é passado' e que nada pode se opor à vida, e que ele passou a não acreditar em nada, reconhecendo o vazio existencial em que vive. De certa maneira, ele, Vittorio, o comunista revolucionário e repleto de certezas do passado, se transformou em um existencialista e niilista, que não crê em mais nada. 

Vittorio desabafa e diz para Francesca que esta não se casou com ele porque ambos não tinham nada e que, agora, que ela está muito bem materialmente, a mesma estaria pensando em casar com ele, como se nada tivesse acontecido durante todos aqueles anos, falando ainda que o marido dela pode ser uma boa pessoa, mas que a aborrece, e que com a desculpa do 'velho amor' ela tem uma justificativa romântica para agir assim. Ela fala que ele está louco e vai embora. 

Depois, ele novamente se lembra de Elena, seu grande amor e por quem foi abandonado, relembrando o momento em que ela disse que estava grávida e que não lhe criaria problemas (referindo-se ao casamento deste, é claro). Porém, ela decide abandoná-lo. Vittorio diz que toda a sua vida (trabalho, casamento) perdeu o sentido. 
Giacomo Matteotti é citado no filme. Ele foi um deputado socialista que denunciou as fraudes eleitorais promovidas pelos fascistas nas eleições de 1924, fato este que levou ao seu assassinato. Em 1973, Florestano Vancini dirigiu um clássico filme sobre o fato, 'Il Delitto Matteotti". 
Ele culpa Elena pela situação, ela concorda, mas diz que ele se arrependerá da decisão de terminar o relacionamento com ela e que ela se sente envergonhada de ser apenas 'a outra' na vida dele, que fica desesperada quando retorna para casa, após os seus encontros, e que ela aspira a ter uma casa, filhos... Ela diz que lhe agrada o fato deles serem amantes, mas que isso não é o suficiente e fala que ele precisa tomar uma decisão (ou seja, de terminar ou não o seu casamento em função dela, Elena). 

Vittorio implora para que Elena não o obrigue a tomar uma decisão, mas ela diz que se ele abandoná-la e eles voltarem a se ver, ela irá ignorá-lo. 

Portanto, fica claro, pelas lembranças de Vittorio, de que ele teve, sim, uma grande responsabilidade pelo fato do seu relacionamento com Elena ter acabado. Afinal, faltou-lhe a coragem necessária para se divorciar da esposa, pela qual já não sentia nada há muitos anos, e cujo casamento estava literlamente falido, para poder ir viver com Elena, que era o seu grande amor. 

Depois, ele vai visitar o cemitério em que seu pai, Mario Borghi, e a sua mãe, Alma Lambertini, foram enterrados. No local, narrando, Vittorio diz que para os seus pais viver era algo simples e natural e que, mesmo assim, eles eram felizes. E se perguntava de onde eles tiravam as forças para isso. E reconhece que ele não tem mais fé e nem entusiasmo para continuar a viver.

Daí, Vittorio se pergunta qual é a razão de sua vida? Sua resposta é 'dar um testemunho de dignidade', e que para isso ele terá que negar todas as retóricas e todas os uniformes, ou seja, não se prender a nenhuma ideologia, religião ou preconceito. 

Depois, temos a sequência final deste belo filme de Florestano Vancini. 
Vittorio, pouco antes do ataque de fúria, quando extravasou toda a sua frustração pelos fracassos acumulados em sua vida familiar, amorosa, política e ideológica. 
Nela, Vittorio vai a um lugar público no qual um grupo de jovens dança, alegremente e ao ar livre, ao som de músicas que são tocadas numa jukebox. Ao ver aquela felicidade espontânea, a qual um dia já vivenciou, ele acaba explodindo, quebrando copos, mesas, o jukebox, enquanto grita 'Não me terás nunca mais' e 'Não me julgará mais', sentindo-se frustrado por não desfrutar mais de momentos como aquele em sua vida, principalmente depois que seu relacionamento com Elena terminou. 

Vittorio chora... 

E vai embora... 

Em busca de (outra) Elena? Ou da morte? 

Informações Adicionais:

Título: Le Stagioni del Nostro Amore (Enquanto Durou o Nosso Amor);
Diretor: Florestano Vancini;
Roteiro: Florestano Vancini; Elio Bartolini;
Ano de Produção: 1966; 
País de Produção: Itália;
Duração: 91 minutos;
Elenco: Enrico Maria Salerno (Vittorio Borghi), Jacqueline Sassard (Elena); Anouk Aimée (Francesca); Gian Maria Volonté (Leonardo Varzi); Gastone Moschin (Carlo di Giusti ou Tancredi); Valeria Valeri (Milena, esposa de Vittorio); Checo Rissone (Olindo Civenini); Pietro Tordi (Mario Borghi, pai de Vittorio); Bruno Garilli (Loris Macchi).
Prêmio: Vencedor do Prêmio da Fipresci (Federação da Crítica Internacional) do Festival de Berlim, em 1966.

Link:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0188207/?ref_=nm_flmg_dr_17

Vídeo - Cena do filme: