quarta-feira, 28 de setembro de 2016

'Oldás és Kötés' ('Cantata'): Miklós Jancsó fez um belo filme, influenciado por Antonioni e pelo Existencialismo! - Marcos Doniseti!

'Oldás és Kötés' ('Cantata'): Miklós Jancsó fez um belo filme, influenciado por Antonioni e pelo Existencialismo! - Marcos Doniseti!
'Oldás és Kötés' ('Cantata') foi o quarto longa-metragem realizado pelo húngaro Miklós Jancsó, um dos mais importantes cineastas do Leste Europeu do Pós-Guerra. Ele ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1972, como melhor diretor, e realizou 21 curtas-metragens antes de fazer o seu primeiro longa-metragem.
Este belo filme de Miklós Jancsó tem uma nítida influência da obra genial de uma dos principais cineastas da história, que é Michelangelo Antonioni, bem como do Existencialismo. A ótima trilha sonora do filme (Jazz, Twist e Rock'n'Roll) e a bela fotografia também são destaques deste excelente filme. O diretor, Miklós Jancsó, declarou que o filme 'A Noite' (Antonioni) foi a maior influência na realização de 'Oldás és Köntés'.

A história do filme gira em torno de um cirurgião, Járom Ambrus, que fica indignado porque não consegue fazer a cirurgia cardíaca de uma mulher, esposa de um amigo (Gyula, que também é médico). Esta acaba sendo operada por um outro cirurgião (Ádámfy), já idoso (70 anos), e que há dois anos que não operava ninguém.

Járom questiona se o velho cirurgião teria ainda a habilidade necessária para fazer a cirurgia, bastante delicada, e diz que a medicina moderna gira em torno de um trabalho de equipe (cirurgião, biólogo, engenheiro químico) e não depende mais de 'lobos solitários'.

As cirurgias modernas, afirma Jaróm, precisam de um 'maestro' e não de um 'artesão'. Ele tenta convencer seu antigo professor de medicina (Sandor), sobre o erro de escolher Ádámfy para fazer a cirurgia, mas o mesmo foi aluno do velho cirurgião e discorda dele.
O velho cirurgião (Ádámfy) ainda faz milagres com as suas mãos. 
Porém, mesmo assim, a cirurgia da mulher, foi bem sucedida, graças justamente à habilidade individual do veterano cirurgião, que conseguiu ressuscitar a mulher, cujo coração tinha parado de bater, ficando em situação de morte clínica.

Assim, o resultado da cirurgia negou tudo aquilo que Jaróm disse. Sandor lhe diz que Ádámfy, o cirurgião da 'velha escola', tinha energia, tenacidade e solidão. No hospital, onde se passam os primeiros trinta minutos do filme, Járom pergunta a Sandor se este percebeu, na Universidade, se ele tinha vocação para ser médico ou se era apenas um carreirista, questionando-se a respeito da escolha profissional que fez.

O Professor lhe responde que, como ele tem 32 anos, Jaróm tem mais um ano para decidir se irá preferir ser crucificado ou se irá viver como os outros, dizendo ainda que primeiro ele tem que aprender a viver e que, depois, poderá começar a filosofar.

Tudo isso mostra que Jaróm está passando por um momento pessoal difícil, por uma crise existencial, possuindo inúmeras dúvidas a respeito da sua trajetória de vida, perguntando-se se as decisões que tomou até ali foram corretas ou não. E ele se dá conta dos inúmeros erros que cometeu e que o levaram à situação de angústia, solidão e alienação na qual se encontra.
A jovem e bonita loira diz que está apaixonada por Járom, mas este reage com frieza.
Desta maneira, a influência do Existencialismo sobre este belo filme de Miklós Jancsó é mais clara do que nunca (até pela influência de Antonioni). O protagonista (Járom) parece ter saído de um café parisiense do começo dos anos 1960, com seu sobretudo negro, sua solidão, angústia e  amargura.

Járom vivencia um processo de alienação em relação a tudo: amigos, mulheres, família, sociedade. Ele tenta se envolver com as pessoas que lhe são próximas, mas não consegue.

Quando ele encontra seus amigos em um restaurante, vemos uma jovem e bonita mulher loira, uma amiga, que lhe diz claramente que é apaixonada por ele, mas Járom não responde. Depois, eles vão a um ateliê, onde assistem a um filme, que gera um debate da qual ele fica totalmente excluído.

A loira jovem e bonita chega a lhe entregar a chave do seu apartamento, mas ele não irá até lá. Járom não consegue se envolver sentimentalmente com ela e tampouco interage com o grupo de amigos. Enquanto os amigos bebem, conversam, dão risada, ouvem música, dançam intensamente (ao som do Rock'n'Roll), divertem-se, interagem, ele fica isolado de tudo.
Járom em meio a um grupo de amigos, mas ele não consegue interagir com eles, ficando isolado. 
Quando ele sai do ateliê e vai ao encontro de um outro grupo de amigos, que está em um restaurante, onde os mesmos conversam a respeito de questões artísticas, históricas e culturais, ele fica quieto e não consegue se enturmar, num tédio mortal.

Depois, Jaróm retorna para o grupo de amigos no ateliê e eles estão assistindo a um filme antigo, que mostra Járom e Martá, uma antiga namorada, juntos, à beira do rio (Danubio).

Assim, vemos que Járom já vivenciou um momento em que ele não esteve sozinho, mas fica claro que as angústias existenciais já faziam parte da sua vida. 

No ateliê, fica claro que ele e Martá ainda se amam e chegam a se beijar, conversam, dão risada, algo raro. Jaróm tenta convencer Martá a ficar com ele, mas a mulher pela qual ele demonstra possuir um sentimento mais forte agora é casada e diz que não pode abandonar o marido.

Com isso, Jaróm se dá conta de que talvez tenha perdido a oportunidade de ter sido feliz em sua vida, deixando de ficar com a mulher que amava. E agora é tarde demais para mudar isso.

Em função de tudo, Járom pede ao professor (Sandor) que empreste o seu carro para que ele possa viajar por dois dias, para visitar a família, que mora na área rural, onde o seu pai é um pequeno proprietário de terra. Com isso, Ambrus decide retornar para a pequena cidade onde nasceu, onde também reencontra um antigo amor (a bela Eta) e o seu irmão.
Marta é uma antiga paixão de Járom, com quem ele teve um romance intenso, mas que se casou com outro. Eles continuam a se gostar, mas a separação foi inevitável, pois ela se recusou a abandonar o marido.  
Desta maneira, Jaróm embarca numa viagem em busca das suas raízes, fazendo uma tentativa de tentar entender o que o levou à situação em que se encontrava naquele momento, marcada pela angústia, solidão e pelo sentimento de total alienação que vivencia.

Em contraste com a condição de infelicidade, angústia e de alienação que afetam Járom, o seu pai é uma pessoa plenamente integrada ao mundo que o cerca. Ele é tão solitário quanto Járom (que tem apenas um irmão), mas não se sente sozinho e nem angustiado, muito pelo contrário.

Nas conversas que Jaróm tem com o pai, percebe-se o quanto esse está inteiramente integrado à realidade em que vive, com a natureza. Até os animais lhe obedecem, a cada ordem sua, fazendo exatamente o que ele manda.

Obs1: Na casa da família, Jaróm fica em um quarto que é uma reprodução quase que totalmente fiel de um quadro de Van Gogh. Esta é uma das várias referências culturais que temos no filme. O compositor húngaro Bela Bartók e o escritor Jean Giono (cuja obra trata da condição humana) também são referências usadas por Jancsó em seu belo filme.
A jovem e bonita loira entrega a chave do seu apartamento para Járom, mas este não irá ao mesmo.
Logo, o pai de Járom (é um personagem sem nome) é feliz ali, tanto que quando Járom convida-o para ir morar em Budapeste, o mesmo acaba recusando o convite e decide continuar residindo no campo, onde irá morrer em breve, como ele mesmo prevê. Percebe-se que ele faz parte daquele mundo no qual nasceu e viveu toda a sua vida.

É esse enraizamento que Jaróm não consegue desfrutar e sentir em sua vida, em Budapeste, com os seus amigos ou com as mulheres com as quais se envolve. E no campo, ele também se sente deslocado, pois saiu dali já há muitos anos e já não é mais a mesma pessoa. Assim, ele não se sente parte de nenhum lugar em particular, passando por um completo processo de alienação (social, familiar).

Járom afirma que ele é o filho de um camponês que se tornou cirurgião e que ele não deveria ter tido acesso tão fácil a tudo, como se não fosse merecedor dos esforços e sacrifícios que a família fez para que ele chegasse à Universidade. Ele diz que tudo foi tão fácil para ele: entrar na Universidade, trabalhar numa clínica. Ele diz que até mesmo o fato de ser filho de um camponês pobre tornou tudo mais fácil para ele e que isso teve um ônus (que foi a sua alienação).
Járom enfrenta uma crise existencial que o leva a refletir sobre as decisões que tomou em sua vida. 
Obs2: Esse comentário de Jaróm se explica pelo fato de que os governos do chamado 'Socialismo Real' poderiam ter inúmeros defeitos (como o autoritarismo, a repressão e a censura), mas eles, de fato, permitiram que milhares de jovens filhos de humildes operários e camponeses pudessem ter acesso ao Ensino Superior, algo com que os seus pais jamais poderiam sonhar que fosse acontecer. Jaróm faz parte da primeira geração de jovens húngaros, originários das camadas populares, que teve condições de ter acesso à Universidade. Até mesmo o historiador britânico Tony Judt (um ferrenho anti-comunista) reconheceu esse fato em seu livro 'Pós-Guerra: Uma História da Europa desde 1945'.

Obs3: Nos países do chamado 'Socialismo Real', as terras eram coletivizadas, ou seja, passaram para o controle do Estado. Mas em alguns países do bloco soviético era permitida a existência de pequenas propriedades rurais privadas. Estes foram os casos da Polônia, da Hungria e da Tchecoslováquia, três países que foram atingidos por Rebeliões populares em diferentes momentos da sua história (Hungria em 1956; Tchecoslováquia em 1968; Polônia em 1956 e em 1970). Em função disso, até para poder manter a insatisfação popular sob controle, os governos destes países foram mais tolerantes e permitiram que uma parte da economia ficasse nas mãos de pequenos proprietários particulares (incluindo pequenos negócios nas cidades). O acesso a bens de consumo duráveis (automóveis, aparelhos de tv, rádios, etc) também foi outra forma de atender às exigências da população.
Járom quer compreender os motivos que o levaram a um sentimento de solidão, angústia e alienação. 
Em sua viagem, Járom também encontrou um antigo amor (Eta), mas ele lhe disse que, no passado, até gostou dela, mas que nunca a amou. Percebe-se claramente que ela ainda o ama, mas ele recusa qualquer envolvimento com a ainda bonita mulher que ela é, apesar de ser mãe de dois filhos. Eta o questiona a respeito do fato de que ela não recebeu apoio dele na Universidade.

A fala de Eta sugere que a mesma teria participado ativamente da 'Revolução de 1956', que se desenvolveu contra o sistema stalinista e a dominação soviética na Hungria e que resultou na invasão do país pelas tropas do 'Pacto de Varsóvia' (Novembro de 1956) e que, em função disso, teria sido expulsa da Universidade. 

Agora, porém, ela diz que terá que terminar o curso que foi interrompido, caso contrário perderá o seu emprego na fazenda.

Obs4: Milhares de pessoas que participaram da chamada 'Revolução Húngara de 1956' perderam seus cargos no governo, em universidades, e foram perseguidas politicamente, chegando a cumprir penas de vários anos de prisão. E muitos húngaros saíram do país, em busca de refúgio em outros países da Europa.
Járom volta à sua cidade natal, na área rural, e reencontra um antigo amor (Eta).
Assim, ficamos sabendo que ela também foi estudante universitária (curso de Agronomia), mas que em função das suas atividades revolucionárias, Eta foi expulsa da Universidade, enquanto que Járom continuou na mesma devido aos seus 'contatos socialistas'. Ela também diz que eles poderiam ter se casado. Logo, ela foi mais uma mulher com quem ele se envolveu romanticamente, mas que acabou abandonando, tal como também fez com relação a Márta.

Eta lhe apresenta os seus dois filhos (Gyuri e Ferko) e estes dizem que desejam ser médicos quando crescerem. E é claro que isso não deixa Jaróm nenhum pouco feliz, talvez por temer que eles serão tão angustiados, infelizes e alienados quanto ele.

Jaróm também estimula o seu irmão a estudar e o convida para ir morar com ele, em Budapeste,, mas o mesmo parece não ter interesse nisso, preferindo viver ali mesmo como um pequeno fazendeiro. Talvez o próprio fato de ver o que aconteceu com Jaróm o convença de que o melhor a fazer é viver e morrer ali mesmo, no campo, ao qual está perfeitamente integrado.

Jaróm também tenta convencer o pai a voltar com ele.

Desesperado, ele diz: 'Nada parece certo! Eu realmente não sei mais de nada. O jeito que vivi. Tudo tão fácil. Mas agora estou tão só. Ajude-me'. Mas o pai continuará vivendo ali, em seu mundo, ao qual também se integra facilmente. E ali irá morrer, como diz ao filho infeliz.
Járom, seu pai e o irmão: Enquanto ele enfrenta uma situação de alienação em relação a tudo (família, amigos, sociedade), eles se sentem perfeitamente integrados ao mundo no qual vivem. 
Járom faz uma viagem de volta, sozinho, à Budapeste, sendo que no meio do caminho ele deu carona a um jovem ao qual, pouco antes, ele quase atropelou. Ele conversou e riu ao conversar com o jovem caroneiro, que planeja estudar Agronomia, dizendo que as pessoas da sua vila irão apoiá-lo. Assim, ele poderá voltar viver em meio ao local onde cresceu, junto com as pessoas que sempre conheceu, privilégio este que Jaróm não teve, o que o deixa com a sensão de que aquele, sim, é um privilegiado.

Quando chega à Budapeste, Járom reflete sobre a sua tentativa de compreender a situação que vivencia naquele momento e uma frase encerra o filme: ‘Se você olhar diretamente para dentro do Sol e perder a sua visão, não culpe o Sol, mas seus olhos'.

Fim.

Informações Adicionais:

Título: 'Oldás és Kotés' ('Cantata');
Diretor: Miklós Jancsó;
Roteiro: Miklós Jancsó; Gyula Hernádi; Jozsef Lengyel.
Duração: 90 minutos; Gênero: Drama;
Ano de Produção: 1963; País de Produção: Hungria;
Elenco: Zoltán Latinovits (Dr. Járom Ambrus); Andor Ajtay (Professor Ádámfy); Béla Barsi (Pai de Ambrus); Miklós Szakáts (Professor Sandor); Gyula Bodrogi (Kiss Gyula, médico); Edit Domján (Márta); Mária Medgyesi (Eta); Gyöngyver Demjén (Fiatal Iány); István Avar (Balázs).
Járom volta para Budapeste, onde continuará tentando encontrar uma solução para os seus dilemas. 
Links:

Informações sobre o filme:


Textos sobre o filme:



Trecho do filme:

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Costa-Gavras: 'Sessão Especial de Justiça': Quando a Justiça deixa de ser cega e as convicções tornam-se mais importantes do que as provas! - Marcos Doniseti!

Costa-Gavras: 'Sessão Especial de Justiça': Quando a Justiça deixa de ser cega e as convicções tornam-se mais importantes do que as provas! - Marcos Doniseti!
'Sessão Especial de Justiça', de Costa-Gavras, é um excelente drama político-judicial e que é baseado em fatos reais, que ocorreram na época da chamada 'República de Vichy', regime colaboracionista que contribuiu para o domínio nazista da França.
Este é um excelente drama político do cineasta grego Costa-Gavras, que também é autor de outros clássicos do gênero, tais como 'Z' (Golpe Militar na Grécia), 'Missing'  (Golpe de Pinochet no Chile) e 'Estado de Sítio' (Ditaduras Militares na América Latina), 'Amén' (colaboração da Igreja Católica com o regime nazista) e 'A Confissão' (perseguição política nos regimes do chamado 'Socialismo Real' do Leste Europeu).

Os fatos mostrados no filme são baseados em fatos reais. Em Agosto de 1941, dois meses após a invasão da URSS pela Alemanha Nazista, uma manifestação feita por militantes comunistas foi duramente reprimida pela polícia francesa, o que resultou em inúmeras prisões. 

Como forma de retaliar a ação repressiva dos alemães e do governo colaboracionista, um oficial da Marinha alemã foi morto por um militante comunista em pleno metrô de Paris. E como forma de retaliação, os nazistas exigiram a condenação e execução de seis franceses, caso contrário eles matariam 100 reféns franceses, que seriam escolhidos aleatoriamente.

Para tentar evitar isso, o governo de Vichy, liderado pelo Marechal Pétain, decidiu criar uma Sessão Especial de Justiça, a fim de julgar, condenar e executar rapidamente seis prisioneiros franceses, mesmo que estes  já tivessem sido condenados por delitos de menor importância (produção ou distribuição de panfletos, roubos de bicicletas, produção de textos criticando os nazistas, etc). 
O Marechal Pétain cumprimenta Hitler. Ele comandou o governo colaboracionista de Vichy, no sul da França, até que os alemães e os italianos invadiram a região em Novembro de 1942. Isso levou à formação do 'Maquis', o Exército da Resistência.  
Porém, havia um problema: Era necessário criar, rapidamente, uma lei que permitisse que tais prisioneiros fossem executados, mesmo que os crimes tivessem sido cometidos quando ela ainda não vigorava. Assim, tal lei teria efeito retroativo, o que significa que eles seriam condenados à morte por delitos pelos quais haviam sido, anteriormente, condenados a penas bem mais brandas, de no máximo cinco anos. 

Isso gera uma resistência por parte do próprio ministro da Justiça do governo de Vichy, mas que acaba cedendo à autoridade de Pétain, que concede poder total no caso para o seu ministro do Interior, defensor da execução rápida destes seis franceses. Também ocorre uma resistência por parte de Juízes e até de Advogados que foram escolhidos para defender os acusados, mas elas são contornadas ou mesmo ignoradas por parte do governo colaboracionista de Pétain.

E com isso o destino dos acusados está selado, pois os chamados interesses do Estado ou de algum grupo político que está no poder acaba se impondo ao que a Lei determina, sendo que esta acaba sendo usada ou manipulada conforme a situação política assim o permite. 

Assim, o filme de Costa-Gavras mostra o quanto a Justiça é um poder que também é, em si, um instrumento de poder de uma classe sobre as demais classes. 
Cena do atentado que matou o oficial da Marinha alemã e que levou à formação do Tribunal de Exceção que iria julgar e condenar à morte seis pessoas que já haviam sido julgadas e condenadas anteriormente por crimes menores. 
A França foi facilmente derrotada pela Alemanha Nazista, em menos de dois meses, entre Maio e Junho de 1940. Depois da derrota, o norte do país ficou sob o domínio direto dos nazistas, enquanto que o Sul ficou sob o comando de Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial, e que colaborava com os nazistas. Na época, a maioria absoluta dos franceses apoiou essa política de colaboração. A Resistência, organizada principalmente pelos comunistas e por reduzidos grupos nacionalistas (que seguiam a liderança de De Gaulle) 

O filme começa com a elite governamental francesa assistindo a uma ópera, que diz que os russo irão sofrer, e fica claro, ali, que há uma hierarquia nova quanto às decisões que serão tomadas. Afinal, o ministro da Justiça sequer está sabendo do que se tratava o discurso do Marechal Pétain que estava sendo transmitido naquele momento. Enquanto isso, o Ministro do Interior (o fascista Pierre Pucheu) faz todo um discurso anti-comunista a fim de justificar as medidas repressivas adotadas pelo governo colaboracionista contra qualquer tipo de Resistência. 

No filme de Costa-Gavras, fica claro também que os EUA mantiveram excelentes relações com o governo colaboracionista de Pétain, o que se manteve até 1944, quando vemos o embaixador dos EUA cumprimentar efusivamente ao Almirante Darlan. 

Também vemos que a elite capitalista francesa sonhava em desempenhar um papel importante numa Europa futuramente dominada pela Alemanha Nazista, o que era pura ilusão, pois os planos de Hitler para a Europa era o de promover um extermínio de todos os povos que ele considerava como sendo inferiores (ou seja, todos que não fossem alemães). E quem não fosse exterminado, trabalharia como escravo para os alemães.
Momento da instalação do Tribunal de Exceção (a Sessão Especial): A farsa irá começar. 
No caso da nova lei, que seria usada para condenar à morte, de forma retroativa, aos seis acusados, o ministro do Interior dizia que ela seria uma 'Lei de Exceção'. Mas mesmo nestes casos, é necessário que elas sejam aplicadas apenas a casos que ocorreram a partir do momento em que ela passou a vigorar, o que não é o caso de que trata este filme de Costa-Gavras, que trata de uma lei que passou a valer de forma retroativa. 

Interessante foi a cena em que o Major alemão (Beumelburg) pergunta se tais medidas já eram legais na França, ao que o representante do governo Vichy diz que não, mas que eles poderiam tomar tais medidas se o governo alemão autorizasse. Desta maneira, o governo de Vichy promoveu uma espécie de 'flexibilização' das leis francesas, moldando-as conforme o seu interesse, sem levar em consideração se isso era justo ou não. 

Até o major alemão se espanta com a capacidade do governo de Vichy de promover essas aberrações judiciárias, a fim de agradar aos nazistas, demonstrando o quanto os franceses colaboracionistas ansiavam por se submeter ao poder dos alemães e colaborar com os mesmos. 

Outra cena bastante representativa do abuso de poder por parte do governo de Pétain é quando o representante do ministério da Justiça de Vichy se reúne com as autoridades judiciais francesas e comunica que será necessário condenar à morte seis pessoas à morte pelo crime de 'terrorismo' e que isso precisa ser feito rapidamente, mas que eles não tem ainda o nome dos condenados. Assim, o julgamento será uma farsa, pois o seu resultado já está pré-determinado. A inocência ou culpa dos acusados simplesmente não vem ao caso.
Pierre Pucheu é o ministro do Interior, que recebe autoridade total do Marechal Pétain para agir no caso da formação do Tribunal de Exceção. Este iria condenar à morte seis pessoas e faria isso com base numa Lei que iria vigorar de forma retroativa, sendo aplicada a casos que aconteceram antes dela entrar em vigor.
Uma outra cena muito boa foi aquela em que um juiz (Cournet) que foi convidado para ser o presidente do Tribunal de Exceção que será instalado recusa-se a participar do mesmo e ainda demonstra que possui ideias radicalmente diferentes daquelas que o governo de Vichy defende. 

Enquanto o ministro da Justiça diz que a Guerra se dá entre a 'civilização ocidental' e o 'barbarismo asiático', Cournet diz que não se trata disso, mas que o conflito é entre forças sociais e nacionais, simultaneamente. Cournet também diz que o pacto germânico-soviético foi ruim para os comunistas, mas que a URSS ganhou tempo com o mesmo, a fim de se preparar para um guerra contra a Alemanha Nazista que o governo de Stalin sabia que era inevitável. E que, agora, com a invasão da URSS pela Alemanha Nazista, ficou mais fácil distinguir entre as forças malignas e as demais. E fica claro que ele considera os nazistas como a força maligna, algo que vai contra a política do governo de Vychy, que é de colaborar com a dominação nazista da França. 

Obs1: Dizer que os nazistas alemães eram civilizados é uma verdadeira piada, mas é o que muitos dos seus admiradores na França e em outros países pensavam naquela época. Até mesmo no governo de Getúlio Vargas, no Brasil, tínhamos muitos admiradores do governo nazista, como eram os casos dos generais Dutra e Cordeiro de Farias, que foram os principais responsáveis pelo Golpe que implantou a Ditadura do Estado Novo (1937-1945). 

Quando toma conhecimento da lei retroativa que foi adotada para condenar pessoas inocentes e que não tinham nada a ver com a realização de 'atentados terroristas', Cournet se revolta e recusa-se a assumir o cargo de presidente do Tribunal de Exceção que será criado, sentindo-se ultrajado por terem pensado em seu nome para conduzir aquela farsa. 
Membros da Resistência francesa se preparando para uma ação contra os nazistas alemães. Eles recebiam ajuda da Grã-Bretanha, que lhes enviava armas.
Mas o ministro da Justiça encontra na figura de Michel Benon, um ex-combatente condecorado da Primeira Guerra Mundial, a pessoa ideal para presidir a Sessão Especial, que irá comandar a farsa judiciária. Ele fará de tudo para convencer os demais juízes do Tribunal de Exceção para condenar os acusados, independente de existirem provas ou não contra os mesmos pela prática de 'terrorismo'. 

Benon pode ter pensado que, mesmo sem possuir provas contra os acusados,  ele poderá condená-los com base apenas em suas 'convicções'...

E os outros quatro juízes que irão compor a 'Sessão Especial' foram escolhidos a dedo por Dayras, o secretário-geral do Ministério do Interior. Um dos juízes, que será o mais resistente a condenar os falsamente acusados, era integrante da 'Action Française' (Ação Francesa), grupo de extrema-direita nacionalista que apoiou ostensivamente ao governo de Vichy, mas que também era muito nacionalista, o que ajuda a entender porque ele tenha resistido a condenar cidadãos franceses por imposição dos alemães. 

Obs2: A 'Ação Francesa' foi fundada em 1899, sob a influência do julgamento de Alfred Dreyfus, oficial judeu que foi falsamente acusado de ter entregue segredos do exército francês para os alemães e que foi condenado pela Justiça em duas oportunidades, mesmo sendo inocente. Sob a liderança de Charles Maurras, ela se tornou um movimento monarquista, de extrema-direita, anti-democrático, ultra-nacionalista, anti-semita, xenófobo e católico ortodoxo, sendo contrário ao Estado laico. O movimento se aliou ao Fascismo italiano e apoiou o general golpista Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). A Ação Francesa deu um forte apoio e participou ativamente do governo de Vichy, mas uma parte dos integrantes movimento o abandonou, pois era contrária à dominação nazista da França e se aliou à Resistência. 
Pelotão nazista se prepara para fuzilar membro da Resistência francesa.
E o Promotor do caso, Guyenot, se propõem a exercer fielmente o seu cargo, ou seja, ele irá pedir a condenação à morte de todos os falsamente acusados, sendo o porta-voz do governo de Vichy. E isso será feito mesmo com todos os condenados sendo meros distribuidores de panfletos, coladores de cartazes comunistas (este foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados) ou fabricantes de chapéus, enquanto que os alemães queriam a condenação de 'terroristas'. 

E a farsa fica mais evidente ainda porque na véspera do julgamento começar, os membros do Tribunal sequer tem conhecimento de quem são as pessoas que eles irão julgar e que terão que condenar à morte. 

A lei, neste momento, era ignorada, afinal tudo não passava de uma grande farsa. 

É interessante notar como os defensores deste falso julgamento apresentam o mesmo como uma maneira de se evitar um mal maior, ou seja, a execução de 100 reféns pelos alemães. Nenhum deles pensou em se rebelar contra essa atitude dos nazistas alemães, ou seja, de lutar contra tamanha aberração. 

Então, os membros do governo colaboracionista de Vichy e da Justiça francesa procuram por qualquer argumento que possam usar como justificativa para a postura de submissão e covardia que eles estão adotando no caso. Os únicos que não irão agir desta maneira são um juiz (René Linais) e um advogado (Roger Lafarge), sendo que este último tentou recorrer ao próprio Marechal Pétain, até o momento em que ele percebeu que a ordem para aquele julgamento farsesco vinha do próprio chefe de governo.  
Lucien Sampaix, jornalista do jornal 'L'Humanité' (órgão oficial do PCF), adverte os juízes de que eles também poderão vir a ser julgados depois que a Alemanha Nazista for derrotada. Mas isso não aconteceu. 
No fim das contas, os futuros 'terroristas' serão escolhidos aleatoriamente, sendo que metade serão comunistas e a outra metade serão de judeus. Afinal, para os estúpidos nazistas, judeus e comunistas eram os culpados de tudo o que havia de errado na face da Terra. E um dos advogados (Roger Lafarge) que foi designado para defender um dos acusados (Abraham Trzebrucki) diz aquele julgamento 'é um arremedo de Justiça'. 

Abraham (um mero fabricante de chapéus) acaba sendo julgado e condenado à morte pela falsa acusação de ser um agente do Comintern. Tal acusação foi feita somente pelo fato dele ter recorrido aos serviços do consulado soviético em Paris, pois ele era originário da região da Polônia que foi invadida pela URSS em Setembro de 1939, e por ter colaborado com uma organização que ajudava os judeus que eram perseguidos pelos nazistas. Outro é condenado por ser um militante comunista e um terceiro (Émile) era um pobre coitado que vivia de pequenos furtos (bicicletas) devido à miséria na qual vivia. 

Assim, as condenações se davam até mesmo por fatos com os quais os acusados não tinham conexão alguma, como o pacto germânico-soviético de 1939. Mas, como diz Michel Benon (o juiz que preside a Sessão Especial) aquele julgamento não deve se basear nas leis, mas sim em 'razões de Estado'. 

Obs: O Comintern era a 'Internacional Comunista', que teria a missão de apoiar, promover e organizar Revoluções Socialistas pelo mundo afora (tal como o fez no Brasil, em 1935, em tentativa liderada, e que fracassou, por Luiz Carlos Prestes). Ele foi extinto, por Stalin, durante a Segunda Guerra Mundial. 
Alguns dos condenados à morte, mesmo sendo inocentes das acusações de 'terrorismo' que a Justiça francesa fez contra eles. O resultado do julgamento estava definido antes mesmo de começar.  
O julgamento, no entanto, toma um rumo diferente quando se tratou de julgar Lucien Sampaix, jornalista que foi secretário-geral do jornal 'LHumanité', órgão oficial do Partido Comunista Francês (PCF). Ele é articulado, inteligente, tem influência na sociedade, que denuncia o julgamento feito enquanto a França está sob ocupação de uma potência estrangeira (Alemanha Nazista) e que é comandado pelo ministro do Interior (Pierre Pucheu). 

Sampaix diz para os juízes que a Alemanha Nazista será derrotada e que, quando isso acontecer, estes juízes é que serão julgados. Sampaix não permite ainda que o seu advogado fale em sua defesa, pois todos ali já foram condenados à morte previamente. Ele é o primeiro dos acusados que percebe que aquele julgamento é uma farsa e que a Lei nada tem a ver com o que ocorre naquele Tribunal de Exceção. 

Embora o Promotor tenha pedido pela condenação à morte de Sampaix, três dos cinco juízes votaram contra e ele acabou sendo condenado à trabalhos forçados perpétuos. E os três juízes também decidiram que não iriam condenar mais ninguém, levando à suspensão do julgamento. 

Assim, os alemães acabaram fuzilando outros três membros da Resistência (seguidos do general Charles De Gaulle) para compensar a ausência destas outras três condenados. E mesmo assim os seis acusados acabaram executados. Lucien Sampaix foi assassinado pelos alemães em 15/12/1941 e os outros dois foram guilhotinados, após condenação feita por um Tribunal estadual, em 23/091941.

E os Tribunais de Exceção continuaram funcionando normalmente, durante todo o período em que a França esteve sob dominação nazista, ou seja, até Agosto de 1944, quando os Aliados a libertaram. Mas os juízes que participaram dos mesmos jamais foram acusados por isso. Predominaram as 'razões de Estado'.

Fim.
René Linais foi o único juiz que resistiu à condenar, injustamente, os acusados à morte. Observação: Isso realmente aconteceu (ver link abaixo). 
Informações Adicionais:

Título: Section Spéciale (Sessão Especial de Justiça);
Diretor: Costa-Gavras;
Roteiro: Costa-Gavras, Jorge Semprún e Hervé Villeré (autor do livro no qual o filme se baseou);
Ano de Produção: 1975; Países de Produção: França, Itália e Alemanha;
Duração: 110 minutos;
Gênero: Drama Político;
Elenco: Louis Seigner (Joseph Bartélemy, ministro da Justiça); Roland Bertin (Georges Dayras, secretário geral do Ministério da Justiça); Michael Lonsdale (Pierre Pucheu, ministro do Interior); Ivo Garrani (Almirante François Darlan, Vice-Presidente do Conselho de Ministros); François Maistre (Marquês Fernand de Brinon); Jacques Spiesser (Pierre Georges); Henri Serre (Prefeito Ingrand); Heinz Bennent (Major Beumelburg); Hans Richter (General Otto von Stulpnagel); Pierre Dux (Procurador-Geral); Jacques François (Maurice Gabolde, Procurador Geral do Estado); Claude Piéplu (Michel Benon, Presidente da Sessão Especial de Justiça); Michel Galabru (Cournet); Jean Champion (León Guyenot; Advogado Geral, que acusa os condenados durante o julgamento), Jean Bouise (René Linais, juiz membro da 'Ação Francesa' que discordava das condenações à morte); Bruno Cremer (Lucien Sampaix, jornalista, ex-secretário-geral do L'Humanité, jornal do PCF); Jacques Perrin (Roger Lafarge; advogado de Abraham Trzebrucki; Jacques Rispal (Abraham Trzebrucki); Yves Robert (Émile Bastard);
Prêmio: Melhor Diretor no Festival de Cannes de 1975 para Costa-Gavras.
Livro 'L'Affaire de la Section Spéciale', de Hervé Villeré, no qual o filme de Costa-Gavras se baseou.
Links:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0073679/?ref_=tttr_tr_tt

René Linais e a Justiça francesa durante a ocupação nazista:

https://www.cairn.info/revue-histoire-de-la-justice-2008-1-page-257.htm

Filme, na íntegra:

domingo, 25 de setembro de 2016

'Slnko V Sieti' (O Sol em uma Rede): O filme de Stefan Uher que deu início à Nouvelle Vague Tchecoslovaca! - Marcos Doniseti!

'Slnko V Sieti' (O Sol em uma Rede): O filme de Stefan Uher que deu início à Nouvelle Vague Tchecoslovaca! - Marcos Doniseti!
'Slnko V Sieti', do cineasta eslovaco Stefan Uher, é considerado o marco inicial da 'Nouvelle Vague Tchecoslovaca' dos anos 1960.
Este é um belíssimo filme de Stefan Uher e que deu o pontapé inicial à chamada 'Nouvelle Vague Tchecoslovaca', que foi um dos mais relevantes e significativos movimento cinematográficos, revelando novos e importantes cineastas como Milos Forman (tcheco), Vera Chytilová (tcheca), Jaromil Jires (eslovaco) e Jirí Menzel (tcheco), Juraj Jakubisco (eslovaco) e Jan Nemec (tcheco), Juraj Herz (eslovaco), Ján Kádar (eslovaco). 

O filme mostra que temos inúmeras maneiras diferentes de enxergar a realidade: por meio de aparelhos de TV (vemos um verdadeiro oceano de antenas de TV em Brastilava, capital da Eslováquia), de uma câmera fotográfica, de um pedaço de vidro esfumaçado, de reflexos de imagens do espelho, sendo que estas podem ser inversas ou reversas. 

Ou então poderemos não vê-la, porque uma das personagens é cega e, com isso, ela somente consegue 'ver' a realidade por meio das descrições que são feitas a ela por seus dois filhos: Milo, o mais jovem, e Bela, a jovem namorada de Fajták. E tais descrições nunca são fiéis á realidade, o que não deixa de ser um maneira de se criticar a mídia, que é uma intermediária entre a realidade e as pessoas. 

No filme, os personagens ficam ansiosos, na expectativa de um eclipse, no qual a Lua irá bloquear a luz do Sol, algo que somente voltará a acontecer depois de 120 anos, mas as pessoas ficam preocupadas porque não sabem se as nuvens irão bloquear a visão do mesmo. 
As crianças anseiam pela chegada do Sol e quando ele aparece, elas vão se colocar sob os seus raios. Uher talvez estivesse querendo dizer que elas é que lutariam pela liberdade no futuro. 
Obs1: Talvez essa observação seja uma maneira de Uher criticar a censura, muito ativa na Tchecoslováquia da época, que poderia acabar proibindo a exibição do seu filme, que é bastante crítico com a sociedade e o governo, embora tais críticas não sejam feitas de forma explícita, até para que, assim, fosse possível burlar a censura. Essa é uma situação comum quando se vive sob um regime autoritário. Chico Buarque teve que usar de um pseudônimo (Julinho da Adelaide) para tentar evitar que as suas músicas fossem censuradas pela Ditadura Militar. 

Nesta sua obra, Stefan Uher também faz uma série de críticas à situação da Tchecoslováquia (da Eslováquia, em especial), apontando principalmente para a estagnação (política, cultural, social) que atingia o país no início da década de 1960. 

A Eslováquia era a parte mais pobre e atrasada do país, possuindo uma economia rural e agrária, em contraste com uma República Tcheca mais industrializada, rica, cosmopolita e urbanizada. 

Neste sentido, o filme é muito mais voltado para a realidade da Eslováquia do que da parte Tcheca propriamente dita desse país que, em 1993, acabou se dividindo de forma pacífica, sem conflitos. E a realidade que Uher mostra não é das mais atraentes: pais que descuidam dos filhos, uma vida urbana que não oferece muitas opções aos jovens, ameaça militar (aviões militares cruzam os céus em vários momentos), o trabalho voluntário, e muito desgastante, nas fazendas coletivas. 
Fajták e Bela: O relacionamento deles era marcado pela frieza, ausência de diálogo e de contato físico. 
Em contraste com essa dura crítica ao atraso do país, temos uma trilha sonora moderna, ao som de Rock'n'Roll e de Twist (Chubby Checker tem a clássica canção 'Let's Twist Again' executada em um momento do filme). 

Outro aspecto importante deste 'O Sol em uma Rede' que foi uma das principais contribuições feitas por Uher e pela 'Nova Onda Tchecoslovaca' foi que estes filmes levaram a vida das pessoas comuns para as telas do Cinema. 

A história do filme gira em torno de um jovem fotógrafo amador (Fajták, chamado de Fajolo por sua namorada, Bela) que passa os dias no topo do edifício de apartamentos junto com Bela. Mas o relacionamento entre os dois é frio, distante, e mediado por um aparelho de rádio. 

Fajták recusa-se a conversar com Bela, preferindo ouvir música no rádio. Não há nenhum contato físico entre eles. Em nenhum momento eles se beijam, por exemplo. E em um momento no qual eles discutem, Bela arremessa e quebra o aparelho de radio de Fajták, dizendo que ele nunca conversava com ela, com eles limitando-se a ficar ouvindo músicas.
Fajták vai trabalhar na fazenda coletiva, como voluntário, e ali ele conhece a jovem, bonita e liberal Jana, com quem terá um romance. 
O filme também mostra inúmeros personagens que ficam presos ao passado e que se recusam a caminhar para a frente, rejeitando as mudanças. 

Um dos personagens que se recusa a ir para a frente é o avô de Bela, o camponês (Blazej), que se recusa a usar as novas máquinas e prefere trabalhar com o seu velho instrumento manual. Temos ainda um velho pescador, que usa há muitos anos uma mesma velha e gasta rede de pescar (e que vive sendo remendada), mesmo que, com isso, ele e a sua esposa continuem vivendo no mesmo barraco de madeira. 

Fajták decide, por pressão de seu pai, trabalhar em uma fazenda coletiva durante as férias de verão, pois isso será bom para a sua reputação. No início, ele não queria ir, mas ao chegar ao campo ele entrará em contato com uma nova realidade e não irá querer mais voltar para a cidade. 

Assim, ele irá conhecer Jana, uma jovem bonita, com quem ele tem um romance, mas com a qual ele conversa, dá risada, beija, tudo aquilo que ele não fazia com Bela. Ele chega a jogar o rádio fora, dizendo que não precisavam daquilo, pois preferia conversar com Jana. Enquanto isso, em Brastilava, Bela tem um caso com Peto, um amigo de Fajták. 
Fajták e Jana juntos, no campo, se beijam. 
E na área rural, vemos os camponeses, velhos e cansados, com uma aparência bastante envelhecida, o que é resultado de muitos anos no campo, mas também a consequência da Segunda Guerra Mundial, quando os alemães invadiram a Eslováquia e impuseram um governo fantoche ao país, enquanto que a parte Tcheca foi ocupada e governada diretamente pelos nazistas. 

Em um momento do filme, Stana, a mãe cega de Bela, pensa que estava conversando com o marido, que não estava presente, e contou o motivo pelo qual ela ficou cega. Ela descobriu que estava sendo traída pelo marido e tentou o suicídio, tomando trinta pílulas. Ela sobreviveu, mas o casal escondeu a verdade dos filhos. E quem ouviu tudo isso foi a filha, Bela, que chorou e abraçou a mãe. 

E Fajták descobre que um camponês local, Blazej, é o avô de Bela. Ele expulsou o filho do campo devido a um conflito pela posse da terra. Quando ele retorna para a cidade e conta o fato para a família de Bela, Stana começa a se lembrar do tempo em que viveu no campo, quando já era uma pessoa solitária. 

Quando volta para Brastila, Fajták descobre que uma carta que ele havia enviado para Bela, tinha sido mostrada por ela para Peto. Com isso, ela o decepcionou e ele rompe com a antiga namorada, chamando-a de estúpida. 
Bela mostrou a carta de Fajták para outra pessoa e foi abandonada por ele em função disso.
Em uma narração, pergunta-se quem são os responsáveis pela situação do país. Mas não se dá uma resposta. A população eslovaca é mostrada como sendo acomodada, aceitando a situação existente e esperando que as mudanças aconteçam naturalmente. Uma cena no final mostra Stana, a mãe cega, sendo enganada pelos filhos, dizendo que ela está próxima do rio, mas isso é mentira. Eles fazem isso apenas para deixá-la feliz. 

Obs2: Esta cena lembra o filme 'Adeus, Lênin', quando um jovem conta para a mãe doente, uma antiga e convicta socialista, que a Alemanha Oriental triunfou sobre a Alemanha Ocidental e que toda a Alemanha havia se tornado socialista, a fim de fazer com que ela fique feliz e a sua situação de saúde não piore ainda mais. Ele é a unica forma de contato que ela tem com a realidade e ele se aproveita disso para fazê-la feliz. 

Bela diz para a mãe que ali é uma baía tranquila e que nada se move, que o Sol está na rede, mas que ele sairá dali. Ela claramente está se referindo ao país, no qual nada muda e onde não há liberdade, mas que esta virá. E mãe diz que, então, eles devem esperar sentados e em silêncio por isso, adotando uma postura acomodada, passiva e conformista.

Enquanto isso, Fajták pensa de maneira radicalmente diferente. Ele não quer esperar nada, por coisa alguma, mas ir atrás. Ele quer aprender a pescar, pois assim poderá 'pescar um Sol branco', ou seja, conquistar a liberdade. 
Stana, a mãe cega, pensa que as mudanças irão acontecer sem que seja necessário lutar por elas.
Logo, Fajták é o único personagem do filme que não adota uma postura acomodada e que está disposto a lutar por mudanças em seu país. E é claramente essa a mensagem que Stefan Uher mostrou em seu importante filme: Se você quer mudar a realidade, então não fique sentado, em silêncio, esperando, mas vá à luta. E isso não vale apenas para a Eslováquia, mas para qualquer país e para qualquer povo, em todas as épocas.  

Obs3: Temos várias narrações no filme (feitas por Fajták), bem como temos momentos no qual a imagem é congelada, mas as falas continuam. Assim, este importante filme de Stefah Uher inovou tanto no conteúdo trabalhado, como na forma narrativa utilizada. 

Stefan Uher fez assim um bonito filme, que causa um certo estranhamento na primeira vez em que se assiste ao mesmo, mas que soube criticar de forma bastante sutil e criativa o atraso e a estagnação do seu país (Eslováquia), bem como a acomodação de seu povo, a fim de que o Sol não continuasse mais preso em uma rede. 

Fim.
Fajták e Bela: Ele é o único personagem que tem um desejo de mudança e que está disposto a lutar por isso. Bela e os demais são acomodados e preferem ficar esperandos pelas mudanças. 
Informações Adicionais:

Título: SInko V Sieti (The Sun in a Net; O Sol em uma Rede);
Diretor: Stefan Uher;
Roteiro: Alfonz Bednár (adaptado do seu livro de mesmo nome);
Ano de Produção: 1962; País de Produção: Tchecoeslováquia;
Gênero: Drama;
Duração: 90 minutos;
Música: Ilja Zeljenka;
Fotografia: Stanislav Szomolányi;
Elenco: Marián Bielik (Fajták/Fajolo); Jana Beláková (Bela Blazejová); Olga Salagová (Jana); Adam Janco (Stohár Blazej, avô de Bela); Vladimir Malina (Pescador); Lubo Roman (Peto); Eliska Nosálová (Stana Blazejová, mãe de Bela); Andrej Vandlik (Ján Blazej, pai de Bela), Peter Lobotka (Milo, irmão de Bela).

Links:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0176155/?ref_=ttfc_fc_tt

O Cinema Eslovaco dos 1970 revisitado:

http://sensesofcinema.com/2008/feature-articles/slovak-cinema-1970s/

A Nova Onda Tcheca - Lista de 15 filmes relevantes:

http://cineplot.com.br/index.php/2016/06/04/15-filmes-da-nouvelle-vague-tcheca-que/

Trecho do Filme: