segunda-feira, 31 de outubro de 2016

The Doors lança novo disco, com músicas gravadas no 'London Fog' em 1966! - Marcos Doniseti!

The Doors lança novo disco, com músicas gravadas no 'London Fog' em 1966! - Marcos Doniseti!
The Doors, na época em que se apresentavam no 'London Fog', em Los Angeles. 
O genial grupo The Doors, um dos mais importantes e influentes da história do Rock, começou a sua carreira musical tocando em um nightclub de Los Angeles chamado 'London Fog'.

Eles foram a 'banda da casa' por cerca de 3 meses (entre Fevereiro e Maio de 1966) e, depois, acabaram sendo contratados para tocar no 'Whisky a Go Go', de onde despontaram para o sucesso.

Nesta época, Jim Morrison ainda se recusava a cantar de frente para o público, ficando de costas para o mesmo, devido à sua timidez. E o grupo combinava, nas apresentações, músicas de sua autoria e versões de clássicos do Blues e do Rock'n'Roll.

Foi neste período, também, que a clássica 'The End' deixou de ser uma simples canção de amor, para se transformar na canção bela, triste e épica que conhecemos.

Agora, teremos o lançamento de um disco com algumas gravações ao vivo feitas nesta época, em que o The Doors tocava no 'London Fog', e que foram descobertas recentemente.

O disco irá se chamar 'London Fog 1966' e será lançado em 09/12/2016 em formato Box Set de CD e Vinil, junto com algumas fotos do período em que o grupo se apresentava no local.

As músicas foram remasterizadas por Bruce Botnick, engenheiro de som dos álbuns do The Doors e co-produtor do último disco do grupo com a formação completa (o clássico 'L.A.Woman', de 1970/71).
Ray Manzarek, Jim Morrison, John Densmore e Robbie Krieger: Os três meses em que tocaram no 'London Fog' foram muito importantes para o crescimento musical do grupo, que foi aperfeiçoando as suas apresentações, bem como melhorando as suas composições. 

O novo disco terá 7 músicas:

“Rock Me” (Muddy Waters)
“Baby, Please Don’t Go” (Big Joe Williams)
“You Make Me Real” (The Doors)
“Don’t Fight It” (Wilson Pickett)
“I’m Your Hoochie Coochie Man” (Muddy Waters)
“Strange Days” (The Doors)
“Lucille” (Little Richard).

Como se percebe, o repertório inicial do grupo mostra uma grande influência do Blues (o que foi uma marca do The Doors durante toda a sua existência) e, em menor grau, do Rock'n'Roll.

Posteriormente, o The Doors concebeu uma música e um show muito mais completo e sofisticado, que incorporou outros elementos de Teatro, Cinema e Poesia.

Isso era algo inédito no Rock, que ainda era considerado um estilo musical de menor importância e de qualidade inferior por grande parte da crítica e da imprensa musical.

Nos EUA, antes do The Doors, os grupos de maior sucesso eram os de surf music, tipo os Beach Boys da primeira fase, e cuja música era, em grande parte, uma cópia descarada do Rock'n'Roll dos anos 1950, mas com muito menos qualidade, rebeldia e agitação. 

Também tínhamos os 'Monkees', grupo criado pela CBS, rede de TV dos EUA, para fazer frente à chamada 'British Invasion', liderada por Beatles e Rolling Stones e que levou as paradas de sucesso ianques a serem lideradas pelos grupos britânicos, principalmente no período 1964-1966.

O The Doors foi um dos grupos responsáveis por essa mudança qualitativa, que levou o Rock a um novo patamar de criatividade, qualidade e de inovação.

E o padrão de qualidade do Rock, na época, melhorou tanto que até Bob Dylan acabou de ganhar, agora, o Prêmio Nobel de Literatura, o que não deixa de ser um reconhecimento à qualidade da música e das letras criadas pelos principais grupos e artistas de Rock daquele período: Beatles, Rolling Stones, The Who e, é claro, The Doors. 

Obs1: Tal prêmio também foi um reconhecimento, indireto, da qualidade literária dos textos dos escritores da Beat Generation (Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso), que jamais foram agraciados por um Nobel, o que foi uma grande injustiça, sem dúvida.  

Com tudo isso, o grupo se tornou um dos mais relevantes da história do Rock, cuja influência é até difícil de medir, sendo muito forte ainda nos dias atuais.
O busto de Jim Morrison, em seu túmulo no cemitério Père Lachaise, em Paris, já foi roubado tantas vezes que ele não foi mais substituído. Seu túmulo é uma das principais atrações turísticas da cidade. 

E as apresentações explosivas e sensacionais do grupo, especialmente quando Jim Morrison estava inspirado, entraram para a história do Rock. Mas infelizmente foram feitas poucas filmagens e gravações do The Doors quando o grupo estava no auge do sucesso e da forma musical.

O lançamento deste disco, com certeza, será muito bem recebido pelos fãs deste grupo fantástico, pois os mesmos terão a oportunidade de ouvir o The Doors  em seu nascedouro.

O fim do The Doors ocorreu depois que os membros remanescentes gravaram mais dois discos, que não repetiram o sucesso da época em que Jim Morrison estava no grupo: 'Other Voices', de 1971, e ''Full Circle', de 1972. Estes são bons discos mas, sem Jim, eles não receberam a mesma atenção da época em que o genial poeta e vocalista era integrante do grupo. 

Posteriormente, Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore lançaram, em 1978, um novo álbum ('An American Prayer'), com novas músicas, que acompanhavam Jim declamando as suas poesias, de gravações feitas por ele em 1970. 

A popularidade do The Doors chegou a tal ponto que, mesmo após a morte de Jim Morrison e o fim do grupo, o local em que Jim Morrison foi enterrado (sim, ele morreu, mesmo... infelizmente), no cemitério Père Lachaise, tornou-se centro de peregrinação de roqueiros, poetas e de fãs do grupo originários do mundo inteiro.

Longa vida ao The Doors!
The Doors, na época do lançamento de seu primeiro álbum ('The Doors', 1967), que tornou-se um clássico absoluto do Rock.

Link:

The Doors lançará disco ao vivo, da época do 'London Fog' (1966):

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

'Blow-Up': Baseado em conto de Cortázar, Antonioni indaga sobre a natureza da realidade e a possibilidade de mudança! - Marcos Doniseti!

'Blow-Up': Baseado em conto de Cortázar, Antonioni indaga sobre a natureza da realidade e a possibilidade de mudança! - Marcos Doniseti!
'Blow-Up': Filme de Antonioni ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1967. 

O clássico filme 'Blow-Up', de Michelangelo Antonioni, foi baseado em um conto ('As Babas do Diabo') de outro artista genial, o escritor franco-argentino Julio Cortázar, autor de obras clássicas como 'O Jogo da Amarelinha', 'Bestiário' e 'As Armas Secretas', livro no qual temos o conto que inspirou Antonioni.

O genial cineasta italiano Michelangelo Antonioni vinha de uma sequência de filmes absolutamente fantásticos: 'O Grito' (1957); 'A Aventura' (1960), 'A Noite' (1961), 'O Eclipse' (1962) e 'O Deserto Vermelho' (1964), que foram responsáveis pelo seu reconhecimento internacional. 

'Blow-Up' manteve a sequência de belas obras do grande cineasta italiano, sendo que foi o primeiro filme de Antonioni que foi filmado fora da Itália (as filmagens foram realizadas na Inglaterra), sendo o seu segundo filme colorido ('O Deserto Vermelho' foi o primeiro) e que, também, foi o primeiro a ser falado em inglês. 

Apesar disso, as principais características do cinema de Antonioni estão presentes no filme: um personagem entediado, as cenas em profundidade, uma visão crítica da realidade, a importância da paisagem e a reflexão sobre o ato de criação, bem como a respeito do próprio Cinema. 
Capa da revista 'Time', que usou, pela primeira vez, da expressão 'Swinging London' para definir a cena roqueira e psicodélica da capital inglesa. 
A escolha de um genial conto de Julio Cortázar para servir de fonte de inspiração para Antonioni é algo perfeitamente natural, pois o escritor argentino se inspirava em algumas fontes semelhantes às de Antonioni, como é o caso do Existencialismo, e também procurava fazer, em sua obra, uma reflexão sobre a arte de escrever (a Literatura) e indagava, também, sobre o que é real e o que não é.

Obs1: Sugiro que leiam o conto de Cortázar antes de ver o filme de Antonioni. Ele está disponível para leitura ou download em vários sites.


Para quem ainda não leu o conto de Cortázar, aqui vai um resumo:

A história se desenvolve em Paris e trata de um fotógrafo amador (o franco-chileno Roberto Michel) que sai num Domingo de manhã para passear em uma pequena ilha da cidade e vê um casal que, aparentemente, está tendo uma discussão. Ela é loura e mais velha do que o jovem (que tem em torno de 15 anos) e parece estar querendo seduzir o mesmo, como se o estivesse pressionando para isso. Próximo dali, em um carro, um homem mais velho observa a tudo e, depois, vai se aproximar dos dois.  Michel começa a fotografá-los, o que chama a atenção da mulher. O jovem se aproveita para fugir. A mulher tenta recuperar o rolo do filme, mas Michel recusa-se a entregá-lo. No conto fica claro que o homem usa da mulher para atrair adolescentes com os quais ele deseja ter relações sexuais. Mas todas estas conclusões são do fotógrafo, que chega às mesmas depois que começou a analisar as fotografias que tirou dos três no parque. De fato, em nenhum momento ficamos sabendo quais são os motivos que levaram a mulher e o jovem a discutir e nem a saber a razão do homem mais velho se aproximar de ambos. 
O genial escritor franco-argentino Julio Cortázar, em sua amada Paris. Ele foi um exímio contista e romancista, dos melhores que a América Latina produziu em sua história.

No filme de Antonioni, o local em que a história se desenvolve foi transferido para Londres que, na época, vivia uma intensa e criativa cena roqueira e psicodélica, que foi a chamada 'Swinging London', como a definiu a revista 'Time' em matéria de capa sobre o assunto. 


Esta era a época em que Mick Jagger, Keith Richards e John Lennon viviam curtindo, juntos, a noite londrina, em que Jimi Hendrix se apresentava para plateias (e até para guitarristas brilhantes, como Pete Tonshend e Eric Clapton) que ficavam maravilhadas com a técnica e emoção com que o genial guitarrista tocava. 


Obs2: Enquanto isso, os empresários dos dois principais grupos ingleses (The Beatles e The Rolling Stones, é claro) inventaram uma estratégia de marketing que dizia que o fã que gostasse de um grupo, não poderia gostar do outro. O fato é que muitos acreditaram nessa lorota e a popularidade dos dois grupos aumentou bastante em função da polêmica, que foi muito explorada pela imprensa britânica.

Novos e excelentes grupos e músicos de Rock surgiram neste período, na Inglaterra, sendo que alguns deles tiveram carreiras de muito sucesso e de longa duração, tais como: Yardbirds/Led Zeppellin; Pink Floyd, The Who, Cream, The Small Faces, The Animals, The Kinks, Eric Clapton, Jeff Beck, Rod Stewart, entre outros.


Inclusive, há uma cena antológica no filme de Antonioni na qual vemos uma apresentação raríssima dos Yardbirds, com Jimmy Page e Jeff Beck tocando as guitarras (a música é 'Stroll On'). 
Thomas fotografa Verushka, em uma cena antológica do clássico 'Blow-Up'.
Como é do conhecimento dos fãs de Rock, depois Jimmy Page praticamente herdou o grupo e, das suas cinzas, criou o Led Zeppellin. Na cena, Jeff Beck se irrita quando o amplificador de sua guitarra deixa de funcionar e, com isso, ele acaba destruindo a sua guitarra e jogando os restos da mesma para o público que, até aquele momento, assistia ao show de forma apática, como se estivesse 'viajando'...


Consta que o motivo desta cena ter sido feita se deu pelo fato de que Michelangelo Antonioni gostava muito da quebradeira que o The Who promovia em seus shows. 

Então, ele pediu a Jeff Beck que fizesse o mesmo no filme. 

No conto de Cortázar, bem como no filme de Antonioni, também estão presentes vários questionamentos a respeito da natureza da realidade e do trabalho do artista (escritor, cineasta) que tenta capturá-la e compreendê-la.


Obs3: No início do conto de Cortázar, o narrador ora está vivo, ora está morto, e também ficamos na dúvida se temos um ou dois narradores na história (tudo indica que é o mesmo narrador, Michel, que está vivo e morto, ao mesmo tempo). É muito provável que esta seja uma referência à experiência quântica do 'Gato de Schrodinger', no qual não se sabe se um gato que está dentro de uma caixa está vivo ou morto. Talvez ele esteja vivo e morto, ao mesmo tempo... 


Assim, entendo que está bem clara, em ambas as obras, a influência de uma ideia originária da Física Quântica, ou seja, a de que o ato de observar um fenômeno acaba influenciando a natureza do mesmo e que não é possível dizer o que acontece (se é que acontece alguma coisa) quando não temos ninguém observando o mesmo. 
Thomas passeia com o seu carro por uma bonita e deserta cidade de Londres. E no parque onde ele fotografa o casal e ocorre (??) o assassinato, também está tudo deserto, como se ele fosse um fantasma. Assim, no filme de Antonioni, Thomas está 'vivo' e 'morto' ao mesmo tempo, tal como ocorre com o narrador no conto de Cortázar e com o gato na experiência de Schrodinger. 

Portanto, surge a indagação: Será que os fenômenos que observamos daquilo que chamamos de realidade são verdadeiros? Eles realmente aconteceram da maneira como foram observados? Ou foi o ato de observar que lhes deu origem? E quando não observamos nada, acontece alguma coisa? É o ato de observar que modifica (ou cria) a realidade? O que realmente estamos vendo?

No conto de Cortázar, temos um trecho interessante, que está relacionado a estas questões, e que é o seguinte:

"Já sei que o mais difícil vai ser encontrar a maneira de contar, e não tenho medo de me repetir. Vai ser difícil porque ninguém sabe direito quem é que verdadeiramente está contando, se sou eu ou isso que aconteceu, ou o que estou vendo (nuvens, às vezes uma pomba) ou se simplesmente conto uma verdade que é somente minha verdade, e então não é a verdade, a não ser para meu estômago, para esta vontade de sair correndo e acabar com aquilo de alguma forma, seja lá o que for.".

Em outro trecho do conto de Cortázar, temos: "Michel sabia que o fotógrafo age sempre como uma permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo por outra que a câmera lhe impõe, insidiosa... Agora mesmo (que palavra, agora, que mentira estúpida) podia ficar sentado no parapeito sobre o rio, olhando passar as barcaças vermelhas e negras sem que me ocorresse pensar fotograficamente as cenas, nada mais que deixando-me ir no deixar-se ir das coisas, correndo imóvel com o tempo".
Thomas fotografando as modelos, usando as roupas coloridas em voga na época. Ele as trata com desprezo e grosseria. Seu interesse é puramente profissional. No filme, percebe-se a conexão existente entre o comportamento liberal dos jovens e a moda da época. 

No filme de Antonioni o protagonista é um fotógrafo de moda bem sucedido, que anda pela 'Swinging London' em seu Rolls Royce conversível. O personagem de Hemmings (Thomas) é baseado num dos principais fotógrafos de moda ingleses dos anos 1960, que foi David Bailey. 


Ele trata as modelos com as quais trabalha de forma ríspida e arrogante, mas, apesar disso, Hemmings dá ao personagem um charme e elegância que ameniza tais aspectos. Seu sucesso ao interpretar Thomas foi imenso, transformando-o em um ícone da contra-cultura da época. 

Inclusive, uma das melhores cenas do filme é aquela em que Thomas está fotografando Verushka (modelo de muito sucesso na época) e fica sobre o corpo desta, sugerindo claramente um ato sexual entre os dois.

A trama se desenvolve a partir do momento em que, em um dos seus passeios, ele vê, em um parque, um casal (uma mulher e um homem mais velho) que parece estar discutindo. Thomas começa a fotografar a cena, o que é percebido pela mulher (Jane), que sai correndo atrás dele, dizendo que o mesmo não tem o direito de sair por aí fotografando os outros, mas ele se recusa a entregar o rolo do filme e vai embora, para o seu estúdio fotográfico. 


Porém, Jane decide ir atrás de Thomas e o encontra em seu estúdio, momento no qual ela irá usar do seu poder de sedução, enquanto tenta convencê-lo a lhe entregar o rolo do filme. Thomas lhe dá o rolo errado e ela vai embora. 
A bela Vanessa Redgrave, neste filme, lembra muito a musa de Antonioni, a belíssima Monica Vitti, com quem o cineasta italiano foi casado.

Depois, quando começa a revelar as fotografias é que ele começará a perceber algo que não havia notado enquanto tirava as fotos, que é o fato de que há um corpo, de um homem assassinado, atrás de alguns arbustos. Neste momento, ele começa a criar uma história, que liga a mulher (Jane) no parque ao homem assassinado, tal como faz um diretor de cinema ou um escritor. 


Intrigado, Thomas decide retornar ao local, sozinho, mas sem levar a câmera, e verifica que, de fato, há um homem morto no lugar. E ele é o homem com quem Jane discutia anteriormente. Assim, ele começa a se indagar sobre o que, de fato, ele viu no parque (uma discussão entre uma mulher e seu amante?) e o que é que as fotografias mostravam (o assassinato do amante pelo marido de Jane)? 



No seu local de trabalho, ele é sempre procurado por jovens aspirantes a modelo, que desejam ser fotografadas por ele, sendo que ele até acaba se envolvendo sexualmente com duas delas (interpretadas por Jane Birkin e Gillian Hills), que são bastante persistentes em seus desejos de se tornarem modelos de sucesso e que usam dos recursos disponíveis (incluindo o sexo) para atingir os seus objetivos. 

Quando retorna para o estúdio, após encontrar o corpo do homem assassinado, Thomas constata que todas as fotos que havia revelado da cena no parque foram roubadas. Ele escondeu apenas uma, que mostrava o local em que a vítima estava. 
Thomas e Jane, seminus, em uma bela cena deste reflexivo e intrigante filme de Antonioni.

O filme não mostra, mas tudo indica que Jane foi a responsável pelo roubo das fotografias. 
Aliás, várias dúvidas permanecem ao final do filme, algo que foi intencional da parte de Antonioni, a fim de fazer os questionamentos a respeito da realidade que já comentei aqui, mas sem apresentar respostas prontas, deixando aos espectadores que reflitam sobre o que foi exibido, a fim de que eles tirassem as suas próprias conclusões (que é uma característica que também está presente na obra de Cortázar). 


O que se nota, de fato, é a mudança que as fotografias desencadearam em Thomas, que é um fotógrafo de sucesso, que é procurado por jovens e belas modelos que desejam alcançar o estrelato, mas que tem uma vida marcada pelo tédio. A fotografia é uma profissão, sua fonte de renda, mas ele procura por algo diferente, que desperte a paixão que há dentro dele, mas que está submersa. 

É como dizia Jim Morrison: 'As pessoas querem algo mais. Algo sagrado'. Thomas é a comprovação deste sentimento, que estava presente na geração de jovens dos anos 1960, que procurou expandir a sua mente e se conectar com outros planos de realidade. 

Isso talvez explique porque ele se misture com pessoas originárias do submundo, como aquelas que vivem em um albergue no qual os marginais da sociedade dormem, as quais ele fotografa para o lançamento de um livro que está preparando. 
Quem foi que disse que Julio Cortázar não apareceu em 'Blow-Up'? Olha ele aí, como um dos sem-teto que foram fotografados por Thomas para o livro que este estava se preparando para lançar.  

Uma das melhores cenas, a respeito disso, é quando Thomas sai com o seu carro à noite, por Londres, e vê Jane em frente a algumas lojas. Ele olha novamente, mas ela não está mais lá e, depois, quando vai procurá-la, não consegue encontrá-la. É como se ela tivesse desaparecido em pleno ar. 

E com isso surge a dúvida, se ele realmente a viu ou se tudo não passou de fruto da sua imaginação. Aliás, é na sequência desta cena, quando ele continua a procura por Jane, que Thomas vai se deparar com o show do Yardbirds, sobre o qual já comentei. 

Obs4: Quando Thomas abre a porta para entrar no clube onde o Yardbirds está tocando, vemos afixado na porta um panfleto que diz: 'Aqui jaz Bob Dylan, que faleceu no Royal Albert Hall no dia 27 de Maio de 1966.". Esta é uma referência a um show que Dylan fez no local e no qual ele encerrou a sua turnê. Nesta turnê, Dylan e banda usaram guitarras e instrumentos elétricos, abandonando os instrumentos acústicos da época em que ele tocava apenas música Folk. Foi no show do Royal Albert Hall que um fã gritou 'Judas' para Bob Dylan e outro disse que nunca mais iria ouvi-lo cantar. E Dylan respondeu 'Eu não acredito em você... Você é um mentiroso'.

E depois do show, Thomas vai até a casa de seu amigo (Ron), para quem havia telefonado anteriormente, pedindo que fosse com ele até o parque ver o corpo do homem assassinado, mas ele não irá, preferindo ficar em sua festa, onde inúmeros jovens roqueiros usam drogas a fim de 'viajar' ou de 'expandir a mente' (não foi à toa que o uso do LSD explodiu entre a juventude nessa época), com a finalidade de se conectar com realidades e dimensões alternativas, que não são alcançadas pelos nossos sentidos. 
Ao revelar e ampliar o filme, Thomas pensou que havia fotografado uma discussão entre um casal, mas ele descobre que, no local, havia acontecido um assassinato.

A paixão que Thomas sente por sua descoberta (o assassinato no parque) é algo pessoal e intransferível. E por isso Ron não sente qualquer tipo de interesse pelo caso. Ele está em 'outro' tipo de viagem. Seus interesses são outros. 


Neste processo, o que move Thomas não é mais o dinheiro, a ambição, o desejo do sucesso, mas as paixões, os sentimentos que a sua descoberta desencadeou no seu interior. Essa é a mesma paixão que ele busca quando se disfarça de sem-teto e vai interagir com os miseráveis londrinos nos albergues baratos e que está ausente no seu trabalho, na sua profissão, no seu cotidiano. 

Obs5: Nesta época, Londres não era chamada de 'Swinging London' à toa, pois o Rock e a cultura psicodélica estavam em plena efervescência criativa, com os principais grupos e artistas lançando uma sucessão de discos absolutamente fantásticos. Entre 1965/1967, os Beatles lançaram 'Rubber Soul', 'Revolver' e 'Sgt. Peppers'. O Pink Floyd lançou o seu primeiro álbum ('The Piper at the Gates of Dawn'), composto pelo genial Syd Barrett, os Rolling Stones lançaram 'Out of Our Heads' e 'Aftermath', entre outros, Jimi Hendrix lançou 'Are You Experienced'. 

Obs6: Nos EUA, o The Doors realizou o seu primeiro álbum, com várias canções clássicas, como a bela, triste e épica 'The End', e o Velvet Underground lançou 'Velvet Underground and Nico' (Antonioni chegou a sondar o grupo de Lou Reed para participar de 'Blow-Up', mas os custos elevados para poder transportar toda a trupe para o Reino Unido o levou a mudar de ideia). 

Obs7: Outro cineasta genial que foi para a Inglaterra filmar foi Jean-Luc Godard, que fez 'Sympathy for the Devil' em 1968, no qual temos uma significativa participação dos Rolling Stones. Bons tempos, hein?
Jogadora da partida de tênis imaginário pede a Thomas que pegue a 'bola', para que possam retomar o jogo.

Como o amigo de Thomas não quer saber de assassinato algum, o fotógrafo vai sozinho ao parque. Mas quando ele volta para o local, o corpo havia desaparecido, sem que se dê qualquer pista do que havia acontecido. 

Novamente, vem o questionamento a respeito do que vemos ou não, do que seja a realidade, afinal. Assim, também está presente, nas duas obras, de Cortázar e Antonioni, a ideia quântica de que quando voltamos a observar aquele fenômeno, ele já se modificou. Logo, não há como recuperar aquele momento, que já passou, que já se transformou em outra coisa. Isso talvez explique porque Thomas não encontrou corpo algum quando retornou ao parque a fim de fotografá-lo. 

E no final temos outra cena antológica, quando um grupo de jovens universitários começa a jogar uma partida de tênis imaginária, em uma quadra, mesmo sem ter uma raquete ou mesmo uma bola de tênis.

Obs8: Este grupo de jovens apareceu na sequência inicial do filme e se parece com uma trupe teatral, mas eles são jovens universitários que saem pela cidade a fim de arrecadar dinheiro para caridade, o que é uma tradição inglesa. 

Thomas entra no 'jogo', devolvendo a 'bola imaginária' para os jogadores e o vemos, sozinho, no gramado, talvez refletindo sobre o que viu (ou a respeito do que não viu) naquele dia. 

Seria esta uma maneira de Antonioni dizer que a busca de Thomas por uma vida e por uma realidade alternativas (tal como faziam os jovens roqueiros e psicodélicos daquela época) estava fadada ao fracasso? 

Quem sabe...

Fim.
Thomas, sozinho, no gramado, refletindo sobre o que viu (ou o que não viu) naquele longo dia. 

Informações Adicionais:

Título: Blow-Up;
Diretor: Michelangelo Antonioni;
Roteiro: Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra; Edward Bond (diálogos em inglês); baseado no conto 'As Babas do Diabo', de Julio Cortázar;
Duração: 111 minutos;
Ano de Produção: 1966; Países de Produção: Reino Unido, Itália e EUA;
Música: Herbie Hancock;
Elenco: David Hemmings (Thomas); Vanessa Redgrave (Jane); Sarah Miles (Patricia); Jane Birkin (modelo loira); Gillian Hills (modelo morena); Peter Bowles (Ron); Verushka (Verushka, modelo); Yardbirds (Jeff Beck, Jimmy Page, Chris Dreja, Keith Relf, Paul Samwell-Smith).

Conto de Cortázar - 'As Babas do Diabo':


Links:

A experiência do Gato de Schrodinger:

Quando a legenda 'The End' aparece, Thomas some... Afinal, ele também estava ali? Ele tirou alguma fotografia? Ele está vivo? Ele está morto? A realidade é uma criação da mente humana?

Vídeo - The Yardbirds - 'Stroll On':

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Costa-Gavras: 'Estado de Sítio' - Obra-Prima do Cinema Político que denuncia os crimes das Ditaduras Latino-Americanas! - Marcos Doniseti!

Costa-Gavras: 'Estado de Sítio' - Obra-Prima do Cinema Político que denuncia os crimes das Ditaduras Latino-Americanas! - Marcos Doniseti!
'Etat De Siege' (Estado de Sítio) é um dos grandes clássicos do cinema político mundial, no qual o cineasta grego Costa-Gavras denuncia as torturas como sendo fruto de política de Estado adotada pelas Ditaduras latino-americanas, do Cone Sul em especial (Brasil e Uruguai, no caso específico do filme). 
'Estado de Sítio' é um clássico do cinema político, dirigido pelo mestre Costa-Gavras, cineasta de origem grega, que se naturalizou francês e que realizou a maior parte dos seus filmes na França.

O filme foi produzido em 1972, quando a repressão por parte da Ditadura Militar brasileira encontrava-se no auge. E no Uruguai ela também já era praticada desde a década de 1960, sendo que no caso dos dois países isso era feito com a assessoria da CIA.

A sua consagração como cineasta veio com o clássico filme 'Z', que ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 1970. 'Z' trata da história que resultou em um brutal Golpe de Estado que instalou uma cruel e violentíssima Ditadura Militar na Grécia (chamada de 'Ditadura dos Coronéis') e que durou de 1967 a 1974.

As filmagens de 'Estado de Sítio' foram realizadas no Chile, na época em que o mesmo era governado pelo socialista Salvador Allende.
Dan Mitrione era um policial em uma pequena cidade dos EUA, foi trabalhar para o FBI, acabou sendo recrutado pela CIA, tendo disseminado sofisticadas técnicas de tortura pela América Latina.
Costa-Gavras chegou a ser hostilizado por direitistas chilenos em função disso (que o chamavam de 'comunista' e o mandavam ir embora do Chile), mas o governo do país (Allende) lhe ofereceu as garantias necessárias para que pudesse concluir o filme, com as filmagens sendo realizadas em Viña del Mar.

Porém, Salvador Allende jamais chegou a assistir o filme, pois morreu lutando contra o Golpe de Estado corrupto (seus líderes foram subornados pela CIA), assassino e traiçoeiro de 11 de Setembro de 1973, que foi liderado pelo General Augusto Pinochet que, pouco tempo antes, havia lhe jurado total lealdade. Aliás, quando o Golpe de Estado começou, e ainda sem ter qualquer ideia da participação de Pinochet no mesmo, Allende chegou a pensar que o general, no qual ele possuía plena confiança, tinha sido preso ou mesmo morto pelos golpistas. Doce ilusão...

O verdadeiro Dan Mitrione (Philip Michael Santore no filme) era um policial de uma pequena cidade dos EUA e que foi recrutado pelo FBI. Posteriormente, ele se transformou um agente da CIA que ensinou e disseminou sofisticadas e brutais técnicas de torturas por toda a América Latina, oferecendo cursos a centenas policiais e militares da região. E estes, posteriormente, repassaram as mesmas a milhares de outros militares por todo o subcontinente latino-americano.

Assim, a história do filme é inspirada em acontecimentos reais: O sequestro e morte de Dan Mitrione pelo grupo guerrilheiro uruguaio Tupamaros em 1970, quando Mitrione trabalhava, sob disfarce, infiltrado na Polícia do país (no 'Escritório de Segurança Pública', que fazia parte da AID). Mas ele era, de fato, um agente da CIA.
Augusto Pinochet, Rafael Videla e Garrastazu Médici comandaram três das Ditaduras mais brutais e sanguinárias da história da América Latina, que institucionalizaram a prática das torturas, usando das técnicas que foram ensinadas pela CIA aos militares e policiais da região desde a década de 1960.  
O objetivo dos Tupamaros com o sequestro não era matar Mitrione, mas sim conseguir uma troca do agente secreto dos EUA por 150 prisioneiros políticos, mas o governo uruguaio recusou-se a fazer tal acordo, o que levou à morte do agente da CIA.

Portanto, Mitrione foi um agente secreto dos EUA (CIA) que trabalhou em vários países da América Latina (Brasil, República Dominicana e Uruguai) atuando como conselheiro para as forças policiais destes países, transmitindo-lhes seus conhecimentos a respeito de novas, sofisticadas e brutais técnicas de torturas, pretensamente científicas, que haviam sido desenvolvidas pela CIA nas décadas de 1950 e 1960, por meio do projeto 'MKUltra', que foi financiado pelo serviço secreto dos EUA.

Obs1: No livro de Naomi Klein, 'A Doutrina do Choque', lemos que: "Um memorado da CIA que se tornou público explicava que o programa 'examinou' e investigou numerosas técnicas novas de interrogatório, inclusive assédio psicológico e outras como 'isolamento total' e 'uso de drogas e produtos químicos'. Primeiramente denominado de Projeto Bluebird, e depois renomeado para Projeto Artichoke, foi finalmente batizado de MKUltra em 1953. Nos dez anos que se seguiram, o MKUltra gastou 25 milhões de dólares em pesquisas que visavam encontrar novas maneiras de destroçar as vidas dos prisioneiros suspeitos de serem comunistas ou agentes duplos. Oitenta instituições estiveram envolvidas no programa, inclusive 44 universidades e doze hospitais".
 A história resumida deste projeto secreto da CIA é contada por Naomi Klein, em seu excepcional livro 'A Doutrina do Choque'. Em seu livro, ela diz: "A tortura é um conjunto de técnicas destinadas a colocar os prisioneiros em estado de desorientação e choque, de modo a obrigá-los a fazer concessões contra a própria vontade". 
O agente Dan Mitrione atuava sob disfarce, é claro, como se fosse apenas um técnico da AID ('Agência para o Desenvolvimento Internacional' dos EUA), mas seu superior em Washington era, de fato, um diretor da CIA.

Na América Latina, Mitrione ministrou inúmeros cursos para a formação de torturadores, baseado nos manuais 'Kubark', da CIA, que foram elaborados com bases nas pesquisas realizadas no âmbito do MKUltra. Estes manuais diziam ser possível torturar uma pessoa 'com a dor precisa, no momento preciso, com a quantidade precisa, para se obter o resultado desejado'.

Tais cursos de formação de torturadores contavam, inclusive, com a realização de aulas práticas, utilizando-se de mendigos, prisioneiros comuns e de prisioneiros políticos, que eram torturados pelos 'professores' na frente dos 'estudantes'.

Os cursos ministrados por Dan Mitrione formaram centenas de torturadores em países como o Brasil (para onde ele veio em 1960 e no qual permaneceu até 1967, atuando como conselheiro na Polícia de Minas Gerais), República Dominicana (para onde ele foi em 1967 e na qual atuou na repressão aos movimentos políticos esquerdistas, que tinham sido vitoriosos na eleição presidencial de 1963, que haviam levado Juan Bosch à Presidência do país por meio de eleições democráticas) e no Uruguai, país onde ele chegou em 1969 e no qual ele finalmente acabou morrendo, em Agosto de 1970.
Bandeira do movimento guerrilheiro Tupamaros, que contou com grande apoio popular no Uruguai na década de 1960. Grupo guerrilheiro foi criado em 1962 e se integrou à luta política pacífica e legal em 1989, quando passou a fazer parte da 'Frente Ampla'. Pepe Mujica foi integrante dos Tupamaros e se elegeu Presidente do Uruguai, país ao qual governou entre Março de 2010 e Março de 2015. 
Logo, Dan Mitrione foi o responsável por espalhar estas horrendas técnicas de tortura por toda a América Latina. E depois elas se espalharam pelo mundo todo, principalmente após os atentados de 11/09/2001, quando a CIA criou prisões secretas pelo mundo inteiro e nas quais as técnicas desenvolvidas no projeto MKUltra foram largamente utilizadas. Não foi à toa, portanto, que ele foi chamado de 'Mestre da Tortura da CIA'.

O filme de Costa-Gavras começa mostrando que é inverno na América Latina, uma forma de mostrar a escuridão em que a região se encontrava, pois muitos países se encontravam sob o domínio de brutais ditaduras de Direita apoiadas e financiadas pelos EUA (Brasil, Argentina, Bolívia, Guatemala, entre outros). E nos anos seguintes este número iria crescer ainda mais, após a vitória dos Golpes de Estado no Uruguai (Junho de 1973) e no Chile (Setembro de 1973). O Paraguai, por sua vez, já era governado por uma Ditadura desde 1954 (Alfredo Stroessner) 

A trama do filme se inicia com a morte de Dan Mitrione/Santore e, depois, vai mostrando tudo o que aconteceu para que a história de sua vida tivesse tal desfecho, que resultou na sua morte pelos guerrilheiros do MLN-Tupamaros. Desta maneira, ficamos sabendo tudo o que já foi dito aqui a respeito da trajetória deste agente da CIA especializado em sofisticadas e supostamente 'científicas' técnicas de tortura.

No inverno uruguaio vemos uma megablitz feita pela Polícia, com o objetivo de encontrar os responsáveis pela morte do torturador Dan Mitrione/Santore, que é brilhantemente interpretado por Yves Montand. E desde o início vemos que os agentes secretos dos EUA trabalham de forma conjunta com a Polícia uruguaia, algo que de fato acontecia desde o começo dos anos 1960.
O Uruguai e a América Latina enfrentaram um longo inverno durante a época das Ditaduras Militares, que se espalharam pela região nas décadas de 1960/70, graças ao apoio e participação direta do governo dos EUA nos Golpes de Estado que resultaram na instalação das mesmas.
E a submissão política do Uruguai aos interesses dos EUA fica bem evidente quando o Congresso Nacional decreta luto nacional em função da morte de Dan Mitrione/Santore. E o Núncio Apostólico reza a missa feita para o agente secreto e torturador da CIA, mas sem a presença do Arcebispo, mostrando que a Igreja estava dividida a respeito, e também sem a participação dos Reitores das Universidades.

Mas as áreas da igreja destinada aos militares, aos membros do governo, aos diplomatas e para os integrantes das forças militares e policiais estão repletas.

Em uma reunião, a esposa de Mitrione/Santore fica sabendo que irá viver em uma cidade grande, com oferta de água potável e de alimentação saudável, e que, portanto, seus familiares não estarão sujeitos a problemas que afetam a uma parte da população uruguaia, como a ausência de saneamento básico ou a insuficiência de alimentos. E é dito que elas não são apenas esposas de militares dos EUA, mas representantes de uma civilização, de um estilo de vida.

O filme mostra como foi a operação que capturou Santore, que reuniu muitos integrantes dos Tupamaros. Os guerrilheiros roubavam os automóveis apenas para uso na operação, deixavam os veículos abandonados e orientavam os donos a fazer queixa na Polícia mais tarde, a fim de recuperá-los. O dono de um táxi até já sabia como proceder, pois já tinha sido roubado anteriormente numa outra operação dos Tupamaros. Ele até orientou os guerrilheiros sobre os problemas que o carro tinha...
Blitz da Polícia para tentar encontrar os sequestradores de Santore (agente da CIA e torturador) e Fernando Campos (Cônsul do Brasil).
Uma outra mulher, que teve o seu carro expropriado pelos guerrilheiros, e que estava vestida de forma luxuosa, foi levada a um lixão, no qual crianças miseráveis catavam qualquer coisa que pudessem, o que é uma maneira de se denunciar as desigualdades sociais existentes no Uruguai da época.

Na ação de sequestro, os guerrilheiros cercaram inteiramente o veículo no qual Santore estava e, acidentalmente, desferiram um tiro nele. Depois, levaram-no para um esconderijo e colocam um bigode para disfarçá-lo, a fim de levá-lo a um hospital.

Afinal, o objetivo dos integrantes dos Tupamaros não era matar Santore, mas usá-lo como moeda de troca a fim de conseguir a libertação de 150 prisioneiros políticos. Portanto, era eseencial que Santore vivesse.

Além de Santore, o cônsul brasileiro (Fernando Campos) no Uruguai também é sequestrado pelos Tupamaros, devido ao fato da Ditadura Militar brasileira torturar milhares de pessoas na época (1970). O período do governo de Garrastazu Médici (1969-1974) foi o auge da repressão promovida pela Ditadura Militar.

E um outro funcionário do governo dos EUA (Anthony Lee) também foi sequestrado, mas acabou sendo libertado logo na sequência. Provavelmente isso foi feito apenas como uma ação para despistar os militares uruguaios, dispersando as forças dos mesmos em várias operações simultâneas.
O Cônsul brasileiro Fernando Campos (à esquerda) era membro da organização reacionária católica TFF (Tradição, Família e Propriedade) e Santore (à direita), agente da CIA que treinou centenas de militares e policiais latino-americanos em sofisticadas técnicas de tortura. 
Obs2: No consulado brasileiro vemos que o nome do diplomata é Roberto Campos, político e economista brasileiro que apoiou a Ditadura Militar, tendo sido ministro do Planejamento do governo ditatorial de Castello Branco, quando adotou uma política de arrocho salarial, repressão aos movimentos sociais (operário, camponês, estudantil), restrição ao crédito e privatizações desnacionalizantes, que provocaram uma forte Recessão entre 1964-1967. O nome verdadeiro do cônsul brasileiro que foi sequestrado pelos Tupamaros era Aloysio Gomide.

Obs3: Na América Latina, a primeira ação de sequestro de um diplomata ou agente secreto dos EUA que resultou na libertação de prisioneiros políticos que estavam sendo brutalmente torturados por uma Ditadura Militar aconteceu no Brasil, em Setembro de 1969, quando integrantes da ALN (Ação Libertadora Nacional, liderada por Carlos Marighella) e do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) sequestraram o embaixador dos EUA no Brasil, Charles Elbrick. O embaixador acabou sendo libertado em troca da divulgação de um manifesto, escrito pelos guerrilheiros, pela imprensa brasileira e da libertação de 15 prisioneiros políticos, que foram enviados ao México, onde chegaram em segurança (a respeito do fato sugiro que assistam ao excelente documentário 'Hércules 56'.

Para poder reprimir o crescimento expressivo pelo qual o movimento dos Tupamaros teve no Uruguai durante a década de 1960, e que contava com amplo apoio popular, o governo se utiliza de uma legislação que concede poderes excepcionais ao governo. Tal lei foi aprovada para valer por apenas 60 dias, mas já está sendo usada há dois anos. Logo, há um significativo processo de desrespeito à Constituição, por parte do próprio governo, em andamento no Uruguai neste momento.
O Parlamento do Uruguai vota e aprova decreto que impõe luto nacional em função da morte de um agente da CIA e torturador (Santore). Somente deputados direitistas aprovaram a medida. Entre Junho de 1968 e o final de 1972 o país esteve sob 'Estado de Emergência'.  
O funcionário da AID apresenta a sua entidade como tendo interesse apenas em ajudar o desenvolvimento do Uruguai e de outros países nas áreas da indústria, agricultura, mineração, educação e que atua em inúmeros países que solicitam a ajuda econômica e técnica dos EUA.

E é desta maneira também que os EUA infiltram inúmeros agentes secretos nestes países, como é o caso de Santore, que se faz passar por funcionário da AID, mas que é, de fato, um agente da CIA. E com isso, os EUA também passam a conhecer os outros países em detalhes: suas riquezas, suas fraquezas, suas principais lideranças políticas e empresariais.

Obs4: Para se perceber o quanto isso não mudou, basta verificar onde juízes, policiais e procuradores brasileiros vão fazer cursos: no Departamento de Justiça dos EUA, que comanda o FBI, que foi quem recrutou Dan Mitrione quando este era um simples policial de uma cidade do interior dos EUA.

Um jornalista (Carlos Ducas), bastante inteligente e acurado em suas observações, comenta que são os EUA que necessitam da ajuda dos demais países, por meio do consumo de produtos que são produzidos pelas multinacionais estadunidenses pelo mundo afora: cerveja, alimentos, pasta de dente, geladeiras, entre muitos outros. E é desta maneira os cidadãos do mundo contribuem para a manutenção dos EUA como o país mais rico do mundo.
A esposa de Santore toma conhecimento da realidade uruguaia, onde ela e a sua família terão uma vida privilegiada, sendo os representantes de um estilo de vida, de uma civilização (liderada pelos EUA, é claro).  
Obs5: Atualmente, não é apenas por meio da aquisição de produtos, mas também de serviços, de tecnologia, de dólares e de títulos públicos do governo dos EUA as maneiras pelas quais a população do mundo inteiro colabora para que os EUA continuem sendo o país mais rico e poderoso do mundo. Isso explica porque a prioridade número 1 da política externa dos EUA é abrir os mercados dos outros países para os produtos, serviços, tecnologia e investimentos das empresas estadunidenses. E isso também ajuda, e muito, a entender porque os EUA sempre promovem Golpes de Estado, processos de desestabilização e, se necessário, guerras sangrentas para derrubar governos que adotem políticas nacionalistas e reformistas, pois estas vão contra os interesses dos EUA. 

Obs6: O Golpe de 2016 no Brasil, por exemplo, ocorreu muito em função do fato de que o governo Lula estatizou o pré-sal (criando o Regime de Partilha, por meio do qual 75% da renda líquida do mesmo ficaria com o Estado brasileiro). Não demorou muito tempo para que o governo Temer, que foi rapidamente reconhecido pelo governo Obama, iniciasse a entrega do pré-sal para as petroleiras estrangeiras e iniciasse o desmonte da Petrobras (vendendo campos de petróleo do pré-sal, a rede de gasodutos da empresa e a Petrobras Distribuidora). Outros exemplos dessa política externa extremamente agressiva dos EUA são as Guerra no Iraque, na Ucrânia, na Líbia e na Síria.

No filme, vimos que os EUA entregaram 300 veículos para a Polícia uruguaia por meio da 'Aliança para o Progresso', o que levou a ampliar a presença dos EUA no país, e que Santore participou da cerimônia de entrega dos mesmos. E vemos que há um acordo entre a AID e a Polícia uruguaia para questões de 'trânsito, administrativas e de comunicações'. E é claro que isso é mera fachada para a penetração da CIA no país.
Dois integrantes do MLN-Tupamaros se preparam para ação que irá raptar Santore. Objetivo da organização é trocar o torturador da CIA por 150 prisioneiros políticos. 
Obs7: Aliás, algo semelhante ocorreu no Brasil, entre 1961-1964. Na época, o governo dos EUA recusou-se a oferecer qualquer ajuda econômica ao governo Jango, mas forneceu milhões de dólares em ajuda econômica para governos estaduais que faziam oposição ao governo nacionalista e reformista de João Goulart. Os governos mais beneficiados por tal política foram os de Minas Gerais (Magalhães Pinto), Guanabara (Carlos Lacerda) e São Paulo (Adhemar de Barros. Os três governadores participaram ativamente do Golpe que derrubou o governo democrático de Jango em 1964. Deve ter sido mera coincidência...

Durante o interrogatório a que é submetido pelos membros dos Tupamaros (nome que é originário de Tupac Amaru, líder indígena que se revoltou contra o domínio espanhol em 1780) no cativeiro, Santore se apresenta como um mero técnico e diz que a sua atuação não tem nada a ver com questões políticas dos países nos quais trabalha. Os jornais que forram as paredes contém notícias que mostram a intervenção de instituições controladas pelos EUA (OEA, BID) nos países latino-americanos.

Quando é interrogado, Santore faz de conta que não conhece as técnicas de tortura utilizadas pela CIA e que ele ensinou a centenas de militares e policiais latino-americanos. Ele diz que as torturas no Brasil eram 'casos isolados' (algo que nunca foram... elas foram institucionalizadas pela Ditadura Militar e dezenas de milhares de pessoas foram torturadas no país inteiro no período ditatorial). Neste momento vemos uma 'aula' de tortura sendo ministrada para militares, com o uso de prisioneiros políticos e comuns, o que efetivamente aconteceu.

Os membros dos Tupamaros leem várias notícias que falam do treinamento de policiais brasileiros pelos agentes dos EUA, citando uma do 'The New York Times' que diz que 100 mil policiais foram treinados pelos ianques e seus colegas no Brasil, sendo que outros 600 oficiais da Polícia brasileira foram treinados nos EUA. Mas Santore insiste em dizer que não tem nada a ver com isso.
Uma mulher que teve o seu carro roubado para a ação de rapto de Santore é levada, pelos guerrilheiros, até um lixão, a fim de tomar contato com a realidade de pobreza em que vive uma parte da população do país.  
E quando lhe é mostrada um pedaço de uma foto e é questionado se conhecia algumas pessoas que apareciam na mesma, Santore nega, mas quando a fotografia é mostrada na íntegra, vemos que ele estava ao lado daquelas pessoas em uma palestra. Esse foi o padrão de comportamento de Santore durante todo o interrogatório, mentindo e negando tudo, até que no final ele acaba se entregando, dizendo que está travando uma guerra e que todos os meios são válidos para vencer a mesma.

O Cônsul brasileiro, Fernando Campos, também é interrogado e faz um discurso cristão (ele é membro da TFP, organização católica extremamente reacionária) que condena o materialismo e defende o amor ao próximo, e o Tupamaro o ironiza, dizendo que eles tem quase que os mesmos objetivos.

Enquanto não consegue encontrar os dois sequestrados, a Polícia continua a promover inúmeras blitz, para ver se encontra algum integrante do grupo Tupamaros que possa conduzí-los até o local do cativeiro. Eles chegaram perto do local, mas não o encontraram.

Santore confirma que esteve em 'São Domingos' (ou seja, na República Dominicana) entre 1965 e 1967, período no qual os EUA invadiram o país a fim de garantir a manutenção no poder de um governo aliado e submisso aos seus interesses, mas nega o seu envolvimento em qualquer tipo de crime.
Os EUA entregaram 300 veículos para a Polícia uruguaia, por meio da 'Aliança para o Progresso'. É claro que essa 'ajuda' tem um preço, que é a submissão aos interesses dos EUA. 
Obs8: Em 1961 a CIA assassinou um dos mais brutais ditadores da história da América Latina, que foi Rafael Trujillo, um antigo aliado dos EUA, mas cujas políticas (corruptas, criminosas e sanguinárias) levaram o governo estadunidense a temer que levasse ao estouro de uma Revolução no país, tal como já havia acontecido em Cuba em 1959. Depois, em 1963, tivemos eleições democráticas no país, que foram vencidas por um candidato esquerdista, o escritor Juan Bosch. Seu governo durou poucos meses, pois ocorreu um Golpe de Estado que o tirou do poder. Uma tentativa de Contra-Golpe ocorreu tempos depois e jogou o país numa guerra civil. Daí, em 1965, 40 mil militares (a imensa maioria dos EUA) invadiram o país e massacraram as forças progressistas dominicanas.

Obs9: Na época, década de 1960/70, os EUA estavam totalmente dispostos a impedir que surgisse uma 'nova Cuba' nas Américas. Temendo que a influência da Revolução Cubana se espalhasse pela América Latina, os EUA iniciaram inúmeros programas de infiltração de milhares de agentes secretos nos países da região, seja por meio de acordos oficiais, seja ilegalmente.

No Parlamento, um deputado oposicionista de Esquerda (Fabbri) denuncia a verdadeira invasão que os EUA promovem no Uruguai e na América Latina por meio da AID, Corpos de Paz, Aliança para o Progresso, FMI, BID, entre outras organizações, enviando milhares de especialistas, conselheiros, técnicos para todos os países da região.

Com isso, os EUA irão formar, na América Latina, uma elite técnica e intelectual (economistas, por exemplo) que irá reproduzir e defender as ideias e os interesses dos EUA. E é claro que muitos destes 'técnicos' são agentes secretos disfarçados, tal como Santore/Mitrione, que também irão formar militares e policiais especializados em torturas.

Fabbri denuncia a presença dos EUA na Polícia uruguaia desde 62, ou seja, logo depois da Revolução Cubana ter se consolidado, adquirindo um caráter Socialista.
Santore é interrogado pelos guerrilheiros dos Tupamaros, no cativeiro. Ele negou, o tempo inteiro, sua participação na disseminação de sofisticadas técnicas de tortura pela América Latina, mas no final acabou sendo desmascarado e disse que isso era necessário, a fim de combater os 'comunistas e subversivos'.  
Obs10: No livro 'A Doutrina do Choque', Naomi Klein mostra como o Departamento de Economia da Universidade de Chicago, defensora intransigente das ideias neoliberais de Hayek e Friedman, formou dezenas de estudantes chilenos e, depois, os enviou de volta para o Chile, para lecionar e formar novos economistas neoliberais, a fim de que eles pudessem influenciar os debates econômicos e sociais no país. Tais economistas elaboraram o plano econômico que foi implantado no Chile durante a Ditadura de Pinochet. Tal plano já estava pronto e detalhado, possuindo mais de 500 páginas (e por isso foi chamado de 'O Tijolo'), quando Pinochet assumiu o poder no Chile, após derrubar o governo de Allende de forma covarde, traiçoeira e sangrenta, num Golpe de Estado que foi planejado, organizado, financiado e realizado graças a participação da CIA e de grandes multinacionais dos EUA (caso da ITT).

Fabbri diz que em 1966 a presença dos EUA na Polícia do Uruguai torna-se oficial, com a chegada de um Tenente-Coronel das Forças Especiais, Robert Bain, que passa a trabalhar com um policial local (Baldez) que costuma frequentar a embaixada dos EUA.

E Fabbri diz que obteve essa informação porque não escolheu ser distraído, tal como ocorre com os políticos direitistas do Parlamento uruguaio. Fabbri diz que os Tupamaros (de cujos métodos de luta ele discorda) representam uma força revolucionária que se opõem à exploração dos trabalhadores e ao domínio dos EUA sobre o Uruguai e o seu povo. Fabbri também afirma que Santore substituiu Bain, pois este não havia feito um bom trabalho,
Militares assistem a aula de tortura ministrada pelos agentes secretos da CIA e por militares que foram ensinados pelo serviço secreto dos EUA.
No cativeiro, Santore vai sendo progressivamente desmascarado, revelando-se que ele sempre esteva em contato permanente com os chefes da Polícia uruguaia, sendo que estes foram treinados e doutrinados pela 'IAP' (Academia Internacional de Polícia dos EUA), que também fizeram o mesmo com inúmeros outros policiais de toda a América Latina.

No diálogo entre o líder dos Tupamaros e Santore, há uma parte muito interessante, quando Santore pergunta o que ele teria a ganhar pessoalmente ao colaborar para manter uma sociedade capitalista, que se baseia na exploração dos trabalhadores, o que é aceito por ele como algo normal. E o líder Tupamaro respondeu "A ilusão de ser você também um patrão e não o que és, ou seja, um criado". Santore fica em silêncio.

Obs11: Essa ilusão de querer ser também um patrão, um burguês, é o que faz grande parte da classe média brasileira e, também, latino-americana, ter uma participação significativa no apoio a Golpes de Estado e Ditaduras Militares que reprimem brutalmente os movimentos sociais, que foi exatamente o que as Ditaduras latino-americanas fizeram nos anos 1960/80. A classe média quer se ver como um segmento privilegiado da sociedade, mas isso somente é possível enquanto existirem milhões de trabalhadores pobres e miseráveis e que ela possa explorar uma parte dos mesmos (como empregados domésticos ou funcionários de pequenas empresas das quais ela é proprietária).

Em uma das melhores cenas do filme, vemos os alto-falantes da Universidade tocar uma música em homenagem a Che Guevara. Os policiais ficam desesperados para desligar os mesmos, mas quando eles fazem isso com um alto-falante, outro continua a tocar a mesma música. Enquanto isso, as batidas policiais e blitzes continuam por toda a cidade, a fim de se encontrar o cativeiro.
Fabbri é um deputado de Esquerda que denuncia a infiltração que os EUA promovem na América Latina por meio de várias organizações: FMI, BID, Corpos de Paz, Aliança para o Progresso, AID, CIA. 
No Parlamento, uma deputada lê um relatório que foi elaborado por uma comissão formada por representantes de todos os partidos e, no mesmo, denuncia que a tortura se tornou um sistema frequente, habitual, sendo que elas são utilizadas mesmo contra pessoas inocentes, que não sofreram nenhuma condenação judicial. E as vítimas principais destas torturas são os estudantes e os dirigentes sindicais. E tudo isso acontece sem o reconhecimento do governo, que tenta esconder o fato de que existem organizações paralelas atuando no país, ou seja, os 'Esquadrões da Morte'.

Obs12: Os estudantes e os sindicalistas eram muito visados porque boa parte dos membros do grupo Tupamaro vinham destes dois segmentos da sociedade. Então, a perseguição que eles sofriam era uma maneira de tentar conter essa participação destes setores sociais no MLN-Tupamaros. 

E finalmente Santore é obrigado a reconhecer que o programa dos cursos ministrados aos policiais uruguaios são ligados a movimentos revolucionários (como as de Cuba, Argélia, Vietnã) bem como a questões políticas e sociais (greves, manifestações) e a respeito do treinamento para uso de explosivos e cujos treinamentos são realizados no Texas.

Tais militares irão cometer inúmeros atentados terroristas e começarão a matar militantes de Esquerda, fazendo tudo isso com a proteção policial. Também ocorrem execuções a sangue-frio de militantes esquerdistas rendidos. São os 'Esquadrões da Morte' em ação
O corpo de Santore, que foi morto pelos Tupamaros, é levado para o avião que o conduzirá aos EUA. 
Santore justifica tudo isso, atribuindo aos comunistas e subversivos o desejo de 'destruir a civilização cristã e o mundo livre' e que é necessário combatê-los por todos os meios. Logo, ele assume o seu papel nesta 'guerra'. E os Tupamaros denunciam, em mais um comunicado à população, a sangrenta Ditadura Militar brasileira e a criação (por Santore) de grupos paramilitares que atuaam sob proteção policial e que promovem atividades como espionagem, assassinatos políticos e torturas.

Tudo isso acontece enquanto uma crise política ameaça derrubar o Presidente da República, caso o Parlamento do país se recuse a aceitar a troca do cônsul brasileiro e de Santore pela libertação de 150 prisioneiros políticos. Uma cena das mais interessantes do filme é quando vemos ministros, militares, industriais e banqueiros indo para uma reunião que irá decidir o que será feito. E fica claro que a elite política e econômica uruguaia é formada apenas por grandes capitalistas que são intimamente ligados à economia dos EUA.

A Polícia consegue prender grande parte da lideranças dos Tupamaros, ficando claro para os sequestradores que o governo não irá libertar nenhum prisioneiro político. E os líderes do movimento Tupamaros decidem que Santore deve ser executado, o que acabará sendo feito. E chega um novo representante do governo dos EUA, que continuará fazendo o mesmo trabalho de Santore, enquanto é observado por membros do movimento Tupamaros.

Fim.
Um novo agente (de cabelos brancos) é enviado pelos EUA para substituir Santore... 
Informações Adicionais:

Título: Etat de Siege (Estado de Sítio);
Diretor: Costa-Gavras;
Roteiro: Franco Solinas;
Gênero: Drama Político;
Ano de Produção: 1972; Países de Produção: França, Itália e Alemanha;
Duração: 115 minutos;
Música: Mikis Theodorakis;
Fotografia: Pierre-William Glenn;
Elenco: Yves Montand (Philip Michael Santore); Renato Salvatori (Capitão Lopez); Jacques Weber (Hugo); O.E.Hasse (Carlos Ducas, jornalista); Rafael Benavente (Cônsul brasileiro); Harald Wolff (ministro das Relações Exteriores); Maurice Teynac (Ministro do Interior); Nemesio Antúnez (Presidente da República); Douglas Harris (Diretor da A.I.D.); Jerry Brouer (Anthony Lee); André Falcon (deputado Fabbri); Evangeline Peterson (esposa de Santore); Robert Holmes (Núncio Apostólico); Alejandro Sieveking (Enrique Macchi).
Prêmio: Vencedor do Prêmio Louis Delluc de 1972.

Links:

Os Tupamaros, Dan Mitrione e o sequestro do Cônsul brasileiro no Uruguai:


Naomi Klein e seu livro 'A Doutrina do Choque':


Os Tupamaros e a Ditadura Militar no Uruguai:


Costa-Gavras e as filmagens de 'Estado de Sítio' no Chile


Dan Mitrione: O Mestre da Tortura da CIA:


Kubark: Os métodos de tortura sofisticados que a CIA desenvolveu e usa no mundo todo:



Trailer do Filme: