sexta-feira, 28 de abril de 2017

‘La Cittá si Defende’: Pietro Germi fez um clássico do Noir em que defende a legitimidade da autoridade do Estado! – Marcos Doniseti!

‘La Cittá si Defende’: Pietro Germi fez um clássico do Noir em que defende a legitimidade da autoridade do Estado! – Marcos Doniseti!
'La Città si Difende' é um clássico filme Noir que foi realizado por um dos principais cineastas italianos do Pós-Guerra, que foi Pietro Germi. 
Pietro Germi foi um dos principais cineastas italianos do Pós-Guerra. Ele chegou a realizar alguns filmes que, de alguma maneira, se identificavam com alguns elementos do Neo-Realismo, mostrando a pobreza e a exploração e violência a que os trabalhadores italianos estavam sujeitos. 

Exemplos disso são os filmes ‘In Nome Della Legge’ (Em Nome da Lei, de 1949) e ‘Il Camino Della Speranza’ (O Caminho da Esperança, de 1950).  

Germi se consagrou com as comédias que realizou, principalmente na década de 1960, sendo que algumas delas alcançaram muito sucesso e são verdadeiros clássicos. Mas não foram apenas filmes com elementos neo-realistas e comédias que Pietro Germi realizou e nos quais demonstrou o seu talento. Ele também fez ‘La Città si Difende’ (1951), que é um típico filme Noir. 

No entanto, o caso de Pietro Germi era diferente. Ele nunca foi ligado ao PCI, como aconteceu com Vittorio De Sica, Luchino Visconti e Michelangelo Antonioni, três dos principais cineastas italianos do Pós-Guerra. 

Germi era católico e mesmo quando ele mostra a exploração que os trabalhadores sofriam, ele apresenta o Estado não como um inimigo, mas como um potencial aliado dos mesmos. E sendo católico é até compreensível que isso acontecesse, pois o governo italiano do período era controlado pelo PDC (Partido Democrata-Cristão), que governou a Itália de forma ininterrupta (em coalizão com outros partidos, incluindo os Liberais e, a partir de 1963, os Socialistas) entre 1948-1990.
O momento do assalto, no estádio, durante a realização de uma partida de futebol.  
Assim, em 'In Nome Della Legge' (1949) Pietro Germi mostra o Estado como sendo um agente civilizador de uma determinada realidade (a da Sicília), que era fortemente marcada pela violência privada que era promovida pela Máfia e pelos Capitalistas (latifundiários) e da qual as maiores vítimas eram justamente os trabalhadores e os mais pobres, que não tinham como enfrentar o enorme poderio e a violência destes grupos sociais. 

E agora, em 'La Città si Difende', Germi apresenta a força do Estado (via Polícia) também como um agente que mantém a Lei e a Ordem, a fim de proteger a população da violência de criminosos. 

Porém, é importante notar que este uso da força por parte do Estado não implica no uso de prisões ilegais, torturas e de outras práticas criminosas por parte da instituição policial. O Estado defendido por Germi atua dentro da Lei e não à margem da mesma, como tantas vezes acontece em inúmeras sociedades pelo mundo afora. 

Obs1: Esta defesa que Germi faz de um Estado que atua dentro da Lei, sem abusos, foi comprovado quando os cineastas Neo-Realistas passaram a ser censurados e perseguidos pelo governo italiano (controlado pelo PDC) durante a década de 1950, em plena época da 'Guerra Fria' e do McCarthismo. Quando isso aconteceu, Germi criticou o governo do país e colocou-se ao lado dos cineastas Neo-Realistas. 
Paolo Leandri é um ex-jogador de futebol de grande sucesso e que foi obrigado a encerrar a carreira precocemente em função de uma grave contusão.
Neste filme, Germi até reconhece que a miséria e a falta de perspectiva de se conseguir uma vida melhor por meio do trabalho honesto leva algumas pessoas para a vida do crime, mas o final que ele reserva para os 'bandidos' deixa claro que, na sua visão, o crime não compensa e uma vida diária de trabalho e estudo é que o caminho correto para se conseguir ascender social e economicamente. 

Por isso mesmo este filme ('La Cittá si Defende') de Germi foi muito criticado na época de sua produção, sendo apontado como um filme totalmente contrário aos preceitos do Neo-Realismo e até como sendo conservador politicamente.

Afinal, naquele momento em que o filme foi produzido  (1951) ainda era muito forte a influência das ideias Neo-Realistas na produção italiana, inclusive entre os críticos, mesmo que o auge do movimento já tivesse ficado para trás. 

Mas o fato é que a qualidade desta produção acabou sendo reconhecida posteriormente, passando a ser visto de muito positiva. E atualmente 'La Cittá si Difende' é considerado como sendo um dos melhores filmes Noir que foi realizado fora dos EUA, que é a pátria do Noir por excelência. 
Após o assalto. os integrantes do bando fogem e se separam. 
Assim, não foram apenas filmes com elementos neo-realistas e comédias que Pietro Germi realizou e nos quais demonstrou o seu talento. Ele também fez ‘La Città si Defende’ (1951), que é um típico filme Noir. 

Os romances e os filmes policiais Noir tiveram o seu auge nas décadas de 1930/40 e influenciaram a produção cinematográfica mundial, como foi o caso do Neo-Realismo e da Nouvelle Vague. 

Obs2: 'Ossessione', o filme de Luchino Visconti que foi realizado em 1943 e que é considerado como o marco inicial do Neo-Realismo, foi uma adaptação de um romance Policial Noir (O Destino Bate à Sua Porta, de James M. Cain). 

O policial ‘Noir’ (livros e filmes) ficou em evidência durante o período em que os EUA mergulharam em uma grave Depressão Econômica e, também, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Os romances e os filmes ‘Noir’ mostravam uma sociedade na qual o chamado ‘Sonho Americano’ havia desmoronado e a possibilidade de ascensão social e econômica por meios honestos era praticamente impossível. A única saída para as pessoas comuns era o crime, assim mostrava o Policial Noir. 
A visão da cidade à noite, com as luzes acesas, é uma cena clássica dos filmes 'Noir'.
Obs3: A denominação 'Noir' para esse gênero de filmes é posterior à produção dos mesmos e foi criação de críticos franceses que admiravam esse estilo de filme. 

Somente a partir da década de 1950 é que os EUA entraram em um novo e longo ciclo de prosperidade econômica (que vai durar até 1973 quando ocorreu o primeiro ‘Choque do Petróleo), o que foi fundamental para a recuperação de toda a economia mundial. Assim, os EUA passaram por um período de cerca de 20 anos de grave crise econômica e social. 

Este filme de Germi sofreu a influência de vários filmes do estilo ‘Noir’, como é o caso de ‘The Asphalt Jungle’, de John Huston, que trata de um assalto frustrado.

‘La Città si Difende’ também conta a história de um assalto mal sucedido e que foi levado adiante por elementos marginalizados da sociedade italiana: Operários miseráveis (Alberto Tosi e Luigi Girosi); Um ex-jogador de futebol que encerrou a carreira precocemente devido a uma contusão e que caiu na pobreza (Paolo Leandri); 

Um ‘professor desenhista’ (Guido Marchi), que vive de fazer desenhos de outras pessoas e que também vive em estado de grande penúria. 
Guido engana e mente para os seus companheiros de assalto inclusive para Leandri, dizendo que não sabe onde estão as malas com o dinheiro roubado.
Obs4: Se em 'La Città si Difende' (1951) o Estado reprime as atividades criminosas promovidas por pessoas comuns, em 'In Nome Della Legge' (1949) Pietro Germi defende a ação do Estado na repressão às atividades criminosas da Máfia e dos Grandes Capitalistas. Então, para Germi, a Lei deve ser igual para todos, sejam poderosos ou não. 

Este professor (Guido) vai até alguns restaurantes luxuosos para oferecer os seus serviços, mas nestes locais ele é tratado como se fosse um vagabundo qualquer e vive sendo expulso pelo gerente. 

Percebe-se claramente que Guido é muito pobre porque quando vai a um restaurante, depois do roubo, e pede por uma bisteca, a proprietária se recusa a atender ao seu pedido, pois o mesmo possui dívidas não pagas com a mesma. 

Alberto e Luigi, ambos proletários, por sua vez, vivem na periferia abandonada da cidade, onde vivem os trabalhadores pobres, os prédios são velhos e estão caindo aos pedaços e nem sequer asfalto ou calçamento existe. As crianças da área têm no futebol e nos brinquedos as suas únicas fonte de diversão. 
A bela Daniela (interpretada por Gina Lollobrigida) finge querer ajudar Leandri, mas ele irá se arrepender de ter acreditado nela. 
O assalto ocorre durante um jogo de futebol: Os uniformes dão a entender que pode ser um jogo entre Juventus X Torino ou Juventus X Milan, até porque o estádio está totalmente lotado. 

Enquanto o jogo transcorre normalmente, os ladrões roubando o dinheiro da renda da partida e colocando o mesmo em duas maletas.

Os assaltantes amarram os funcionários do escritório de onde roubaram o dinheiro e vão embora, mas um dos funcionários consegue entrar em contato com a Polícia pelo telefone. Assim, quando os ladrões estão saindo do estádio, várias viaturas policiais já estão no seu encalço. 

Obs5: No filme de Germi a Polícia é criticada, sendo apontada como uma organização violenta, mas que é desprovida de imaginação.  

Obs6: Na cena em que os ladrões estão indo embora do estádio, com o dinheiro já devidamente colocado nas maletas, Paolo Leandri olha para trás, emocionado. A razão disso será explicada mais adiante: Ele foi um jogador de futebol de muito sucesso, mas que foi obrigado a encerrar a sua carreira precocemente, devido a uma fratura que o fez mancar para sempre. 
Luigi se cansou daquela vida marcada pela miséria e tentou mudar o seu destino por meio do crime. 
No carro fogem Guido, Alberto e Luigi (com as duas maletas de dinheiro). Enquanto isso, Leandri apenas observa Alberto e os outros dois ladrões fugindo com o dinheiro. Guido, Alberto e Luigi despistam a Polícia e abandonam o carro. Guido e Alberto levam as maletas embora, deixando Luigi sem dinheiro algum. 

Leandri procura pelos demais e acaba encontrando-se com Guido, que mente para ele dizendo que Alberto ficou as duas maletas. Na verdade, Guido guardou uma das maletas em um local público. 

Na sequência, Leandri vai à casa de Luigi, onde a esposa (Lina) a filha do mesmo 
(Sandrina) se encontram, mas não Luigi. Ele força a sua entrada e abre uma mala. 

Essa sua atitude leva a jovem Lina a desconfiar de que há algo errado e que Luigi fez alguma besteira. Antes mesmo que ele diga alguma coisa, a bonita Lina começa a chorar. 

Depois, Leandri vai atrás de Alberto, telefona para a casa do mesmo e vai até a casa do jovem. No entanto, quando Leandri o encontra, ele descobre que Alberto acabou por jogar a maleta com o dinheiro em uma fonte de água de uma praça. Leandri esbofeteia Alberto recupera a maleta. 
Lina, a filha e Luigi. Ela ficou arrasada quando o marido confessou que havia participado de um roubo e que era procurado pela Polícia. 
O roubo no estádio se torna um grande acontecimento midiático e a imprensa divulga o tempo inteiro as novas informações que estão relacionadas ao grande assalto. 

Luigi volta para casa e acaba confessando para a esposa (Lina), uma jovem bonita e honesta, que participou de um roubo em função da miséria na qual eles vivem. O envolvimento de Luigi em uma atividade criminosa a deixa profundamente triste e abalada. Mesmo assim ela não o abandona e concorda em fugir com ele e a filha para o campo, para a casa da avó de Sandrina. 

Depois, Leandri vai atrás de uma antiga amante (Daniela), que é uma mulher muito rica, bonita e elegante (e que é interpretada pela bela e sensual Gina Lollobrigida). 

Ele pede a ajuda dela, mas a esperta e observadora Daniela percebe que ele está envolvido em algum roubo importante, pois o viu manuseando o dinheiro na maleta.

A esposa de Luigi (Lina) vai até a casa de Daniela, onde está Leandri, e consegue que ele dê 150 mil Liras para ajudar Luigi e a família a fugir, pois o miserável operário não ficou com nenhuma parte do valor roubado (que foram de muitos milhões). Lina vê a Polícia chegando à casa de Daniela. 
Luigi, desesperado, após fugir da Polícia e abandonar esposa e filha. Ele tentava se esconder no campo, mas o seu plano não funcionou. 
Assim, Daniela, a bela ex-amante de Leandri, apenas fingiu em querer ajuda-lo, mas foi para o quarto, fechou as portas e acabou por chamar a Polícia. Leandri percebeu que foi enganado por Daniela e tentou fugir pela janela, mas terminou sendo preso. 

Lina volta para a casa, com o dinheiro que recebeu de Leandri, avisa Luigi sobre a prisão de Leandri e vão embora para o campo, junto com Luigi e a filha (Sandrina). 

Durante a viagem um fato aparentemente de pequena importância acabará tendo grande repercussão: A esposa de Luigi compra uma boneca para Sandrina e, para isso, ela usa do pouco dinheiro trocado que eles possuíam. O restante do dinheiro em poder deles eram em notas de alto valor. 

Daí, quando eles vão embora de trem, Luigi somente está com notas de alto valor (e molhadas, pois foi Leandri que lhes deu) para pagar pelas passagens. E quando o cobrador vê o dinheiro molhado e de alto valor, ele fica desconfiado e chama o Policial que está no vagão. O Policial persegue Luigi, que sai correndo do trem, para o desespero da esposa. 
Tamara Lees interpreta a bela e sofisticada mulher que atraiu Guido e colaborou com a investigação da Polícia.
Luigi fica sozinho, em meio a um matagal. Percebendo que a chance de fugir se evaporara e que iria passar um longo período na prisão, ele comete suicídio. Leandri, na prisão, é chamado para reconhecer o corpo de Luigi e fica arrasado com a morte do amigo. Com isso, ele acaba falando o nome dos outros dois (Alberto e Guido) para a Polícia. 

A Polícia continua com as investigações a respeito de Guido, consegue uma fotografia dele e também chega até uma bela e sofisticada mulher, graças a um desenho da mesma que Guido fez um ano antes e no qual consta o número de telefone dela. 

Tal mulher (sem nome) fornece informações a respeito de Guido para a Polícia, que manda imprimir inúmeras fotos do assaltante e espalha a mesma em locais públicos, sem que Guido tenha conhecimento do fato. 

Este desenho da bela e sofisticada mulher foi feito de graça por Guido para essa dama misteriosa, pois ele se sentiu bastante atraído pela mesma. 

Guido tenta fugir da região de forma clandestina, por via marítima, mas o dono do barco pede um valor absurdo (seis milhões de Liras) para levá-lo embora, pois sabe que Guido está envolvido no roubo do estádio.
Guido aponta uma arma para uma mulher, ao volante de seu carro, mas a sua tentativa de fuga não dará certo. 
Guido vai retirar a maleta de dinheiro e Alberto o encontra e pede para ir embora junto com ele, mas Guido não quer saber do companheiro de assalto e procura se livrar do mesmo. Assim, Guido mentiu para Leandri e, agora, trai Alberto. 

Mas quando Guido foi comprar a passagem de trem para Gênova, o vendedor o reconheceu e avisou a Polícia. Guido sai correndo da estação ferroviária quando é perseguido e troca tiros com os policiais, mas consegue fugir em um carro após atirar em um jovem. Alberto, assustado com o que viu, também foge. 

A mulher, dona do carro que Guido roubou, informa a Polícia, que sabe para onde ele está fugindo. Guido depara-se com um bloqueio policial na rodovia e retorna, mas ele encontra outro cerco. Ele toma outro rumo, indo até o barco no qual ele pensou em fugir anteriormente. Guido tenta negociar com os homens do barco, mas acaba sendo roubado e assassinado pelos mesmos. 

Vemos belas imagens da cidade e Alberto caminha, sozinho, e volta para a sua casa, que é vigiada pela Polícia. Quando ele entra em seu apartamento, policiais caminham em sua direção, mas ele sai pela janela, caminhando pelo parapeito, em situação de grande perigo, o que atrai a atenção de inúmeras pessoas na rua. 
O desenhista Guido tenta negociar com os donos do barco e acaba levando a pior. 
Seu pai e sua mãe, emocionados, o veem naquela situação e a mãe implora para que ele retorne, falando que não tiveram condições de dar muitas coisas ao filho, mas que fizeram tudo por ele. A fala emocionada da mãe faz Alberto chorar e ele consegue voltar para o apartamento. A Polícia o leva preso, enquanto a sua mãe continua chorando. 

Fim.

Obs7: Percebe-se que, nos filmes de Pietro Germi, o crime não compensa. Pietro Germi era um cineasta de fé católica e nota-se que em sua obra o Estado é apresentado de maneira positiva, pois ele é visto como a única força capaz de impor a lei e a ordem. Foi assim em 'In Nome Della Legge', no qual até a Máfia e a Burguesia se sujeitaram ao poder do Estado, e também neste 'La Città si Difende', onde a Polícia consegue desbaratar a quadrilha responsável pelo assalto. E o nome do filme ('A Cidade se Defende') também deixa claro que, para Germi, o Estado tem o direito de usar da força para que as pessoas possam viver em segurança. Mas é bom notar que este uso da força que Germi defende se faz sem a prática de torturas ou de outras ilegalidades e que, para ele, a Lei deve ser igual para todos, o que é muito raro de se acontecer no mundo real, em uma sociedade caracterizada pelas diferenças de classe, etnia, religião, de gênero, entre outras. Aliás, estas são algumas das principais críticas que se fazem a este ótimo filme 'Noir' de Pietro Germi. 
Alberto volta para casa e acaba sendo levado preso pela Polícia. Nos filmes de Germi a autoridade do Estado é vista de forma positiva. 

Informações Adicionais:

Título: La Città si Difende (A Cidade se Defende);
Diretor: Pietro Germi;
Roteiro: F.Fellini; Tullio Pinelli; Pietro Germi; Giuseppe Mangione; 
Duração: 76 minutos; Gênero: Drama; Policial Noir;
Ano de Produção: 1951; País de Produção: Itália;
Música: Carlo Rustichelli;
Fotografia: Carlo Montuori;
Elenco: Gina Lollobrigida (Daniela); Renato Baldini (Paolo Leandri); Cosetta Greco (Lina Girosi); Fausto Tozzi (Luigi Girosi); Paul Muller (Guido Marchi); Tamara Lees (Mulher do Desenho); Emma Baron (Mãe de Alberto); Enzo Maggio Jr. (Alberto Tosi); Patrizia Manca (Sandrina Girosi); Ferdinando Lattanzi (Pai de Alberto); Mario Besesti (Narrador).
Prêmio: Melhor Filme italiano do Festival de Veneza de 1951. 

Vídeo - Trailer do filme:

domingo, 23 de abril de 2017

‘Roma, Cidade Aberta’ – Em clássico do Neo-Realismo, Rossellini mostra a luta da Resistência italiana contra o Nazi-Fascismo! – Marcos Doniseti!

‘Roma, Cidade Aberta’ – Em clássico do Neo-Realismo, Rossellini mostra a luta da Resistência italiana contra o Nazi-Fascismo! – Marcos Doniseti!
'Roma Città Aperta', de Roberto Rossellini, é um dos maiores clássicos do Neo-Realismo e do Cinema mundial. 
Por muitos anos este clássico filme de Roberto Rossellini foi considerado como sendo o marco inicial do Neo-Realismo italiano. No entanto, atualmente isso não acontece mais, pois tivemos várias produções que antecederam ‘Roma, Cidade Aberta’ e que já possuíam várias das características fundamentais do Neo-Realismo. 

Nesta lista de filmes pioneiros do Neo-Realismo, o mais sério candidato a ser considerado como o primeiro longa-metragem do ‘movimento’ é ‘Ossessione’, de Luchino Visconti, produção de 1943 que foi baseada no livro policial Noir ‘O Destino Bate à Sua Porta’, de James M. Cain. 

‘Ossessione’ foi o primeiro filme ao qual se aplicou a expressão ‘Neo-Realismo’, o que foi feito por Mario Serandrei, montador do filme de Visconti. 

A respeito deste filme, o crítico Gian Piero Brunetta disse o seguinte: “O primeiro longa-metragem de Visconti já havia se tornado uma obra-manifesto não só do trabalho do grupo que gravita em torno dele, mas de uma série de forças esparsas que tinham tentado realizar um projeto de poética cinematográfica alternativo em relação aos modelos propostos pelo regime com as grandes tradições do naturalismo literário do século XIX”.
O chefe de Polícia de Roma e o líder da SS (Major Bergmann) na capital italiana se reuniam com frequência, mostrando o colaboracionismo dos Fascistas com os ocupantes alemães. 
O grupo ao qual Visconti era ligado era o da revista ‘Cinema’, que foi dirigida por Vittorio Mussolini entre Outubro de 1938 e Julho de 1943, ou seja, até a derrubada de Benito Mussolini. 

Na revista existia um grupo de intelectuais esquerdistas ou comunistas que era tolerado pelo regime Fascista e que era integrado por Giuseppe De Santis, Gianni Puccini e Mario Alicata. Posteriormente, Luchino Visconti juntou-se ao grupo. 

Este grupo defendia que o Cinema italiano passasse a mostrar a realidade social do país e também o povo italiano, com todos os problemas e dificuldades que enfrentava em sua vida. A fonte de inspiração para esse grupo eram os livros de Giovanni Verga, principal integrante de um movimento literário italiano chamado de ‘Verismo’. 

A ideia inicial de Luchino Visconti era adaptar um livro de Verga para o Cinema, mas isso não foi possível. Com isso, ele escolheu o romance de James M. Cain para fazer o filme ‘Ossessione’, mas sem dar os devidos créditos ao escritor estadunidense, pois temia que a censura fascista o proibisse. 
A miséria na Itália era uma realidade que atingia a maioria da população na época da Segunda Guerra Mundial. No desespero, as pessoas furtavam alimentos de mercados e padarias. 
Sobre o filme ‘Ossessione’, Brunetta afirmou o seguinte:

“O contato físico da câmera com as personagens e a perfeita integração com espaços, lugares e paisagens capazes de se tornarem parte integrante da história, de proporcionarem olhares inéditos da realidade italiana, de desestruturarem os estereótipos visuais até então adotados para contar histórias dramáticas, fazem de Ossessione o ponto de chegada de uma longa pesquisa e, ao mesmo tempo, o modelo para uma nova geração de intelectuais, aos olhos dos quais o filme marca oficialmente o nascimento do novo cinema italiano. "Neo-realismo" é o título de um artigo de Umberto Bárbaro, de 1943.”. (Brunetta in Fabris et ai. 2002, p. 13, referindo-se à resenha de Quai des brumes - Cais das sombras, Marcel Carné, 1938 - publicada na revista Film em 5 de junho de 1943).

Obs1: Trecho retirado do capítulo ‘Neo-Realismo Italiano’, de autoria de Mariarosaria Fabris, que integra o livro ‘História do Cinema Mundial’ (org. de Fernando Mascarello). O filme ‘Cais das Sombras’ (Marcel Carné, 1938) e ‘Ossessione’ (Luchino Visconti, 1943) já foram comentados aqui no blog. 

É bom ressaltar que os próprios cineastas que eram ligados ao ‘movimento’ tinham divergências a respeito das origens do Neo-Realismo, mas tanto Rossellini quanto Visconti diziam que já existiam elementos Neo-Realistas no cinema produzido na Itália dos anos 1930-1940.
O policial ajuda Pina e os membros da Resistência em Roma, que era uma 'Cidade Aberta'. Este é o nome que se dava às cidades que abriam mão de lutar contra os invasores. No caso de Roma, ela foi declarada 'Cidade Aberta' logo após a invasão da Itália pelos Aliados (EUA e Grã-Bretanha) em Julho de 1943.

Além disso, o trabalho de Alberto Lattuada como fotógrafo, que procurava manter 'viva a relação do homem com as coisas', e de cineastas como Francesco De Robertis, Luciano Emmer, Enrico Gras, Francesco Pasionetti, Giovanni Paolucci, Giacomo Pozzi Bellini, Michelangelo Antonio e de Roberto Rossellini com documentários também contribuíram para a gênese do Neo-Realismo.


A imagem cinzenta que vemos em muitos filmes Neo-Realistas (como ocorre neste ‘Roma, Cidade Aberta) tem a sua origem em documentários feitos por estes diretores. 

Além disso, Francesco De Robertis dirigia, já no início da década de 1940, documentários filmados em cenários reais e com o uso de atores não-profissionais, duas características importantes do Neo-Realismo. 

Portanto, quando Visconti fez ‘Ossessione’ (1943) e Rossellini dirigiu ‘Roma, Cidade Aberta’ (1945) isso foi resultado de toda uma trajetória de debate, pesquisa e inovação que se desenvolvia na Itália desde os anos 1930 e que se intensificou nos anos finais do regime Fascista, quando o colapso do mesmo já se aproximava. 
Pina esconde Giorgio Manfredi, que é um dos principais líderes da Junta Militar da Resistência italiana. Manfredi é um nome falso, que é usado para esconder o fato dele ser um importante líder militar da Resistência. 
As vergonhosas e humilhantes derrotas da Itália durante a Segunda Guerra Mundial (na Grécia, por exemplo) acabaram por mostrar o quanto o regime Fascista vivia em função de propaganda e fizeram com que o mesmo perdesse muita popularidade. 

A fragilidade e enganação do discurso de Mussolini, que prometia transformar a Itália em um grande, rico e poderoso Império (restaurando o Império Romano), ficaram mais do que evidentes. Isso fez com que a popularidade de Mussolini e do Fascismo desmoronassem na Itália.

Neste contexto, portanto, mostrar a realidade em que o povo italiano vivia naquela época era um ato virtualmente revolucionário. 

Assim, não foi à toa que ao assistir ‘Ossessione’, Vittorio Mussolini disse que ‘Esta não é a Itália’, pois o filme mostrava uma sociedade marcada pela pobreza, desemprego, desigualdades, criminalidade, prostituição, tudo aquilo que o regime Fascista procurava esconder da população italiana. E é claro que a exibição de ‘Ossessione’ foi proibida pelo regime Fascista. 

‘Roma, Cidade Aberta’, por sua vez, foi realizado no segundo semestre de 1945, quando o Nazi-Fascismo já havia sido definitivamente derrotado.
Francesco é um importante membro da Resistência italiana e recebe a ajuda da sua noiva (Pina). O Neo-Realismo mostrava a realidade nua e crua em que o povo italiano vivia, mas isso não foi fruto de improvisação, mas o resultado de um intenso debate cultural que se desenvolveu na Itália ainda durante a época do regime Fascista. 
As filmagens começaram dois meses após o fim da Guerra e as mesmas se desenvolveram em situação muito precária: Os estúdios da Cinecittà estavam ocupados por refugiados; Havia poucos rolos de filmes disponíveis; O dinheiro disponível para a produção do filme era insuficiente e não havia recursos para contratar atores profissionais. E tudo isso acabou sendo decisivo para a forma final que 'Roma Città Aperta' tomou.

A trama do filme mostra o período de nove meses (Julho de 1943 a Abril de 1944) em que a cidade de Roma esteva sob a ocupação nazista, período no qual existiu um forte e ativo movimento de Resistência, do qual participavam liberais, socialistas, comunistas, anarquistas, católicos. Até mesmo alguns ex-Fascistas ou membros da Milícia fascista chegaram a se integrar ao mesmo. 

A Resistência italiana procurava agir para ajudar a futura invasão da cidade de Roma pelas tropas aliadas, sendo que em um momento do filme é perguntado se os americanos ‘existem mesmo’, devido à ansiedade da população da cidade, que desejava que eles chegassem o mais cedo possível.  

Logo, foi neste momento histórico, de luta contra o Nazi-Fascismo, em que se forjou uma ampla aliança política e social na Itália, que se formou um governo de ‘União Nacional’, que irá durar de 1945 a 1948. 
Pina é uma miserável operária (tecelã) que faz parte da Resistência, tal como o Padre Dom Pietro. Ambos pagarão caro por seu envolvimento na luta popular contra os Nazistas. 
E também foi neste breve momento em que tivemos a emergência do cinema Neo-Realista’, período no qual este atingiu o seu auge. No entanto, a vitória da Democracia-Cristã na eleição de Abril de 1948 (com 48,5% dos votos) colocou um fim a este governo unificado. 

Com isso, a Itália passou a ter um governo conservador e direitista, que passou a perseguir e a censurar as produções Neo-Realistas e que priorizou totalmente a importação de filmes de Hollywood. Estes filmes mostravam uma vida idealizada, de luxo e riqueza, destacando apenas a vida da burguesia. O povo e o seu cotidiano marcado por grandes dificuldades não aparecia nos mesmos. 

Desta maneira, a partir de 1948, o povo italiano foi excluído das principais telas de Cinema, pois as produções Neo-Realistas eram censuradas e ficaram relegadas às pequenas salas de exibição. 

Assim, o Cinema, na Itália, regrediu à mesma situação que existia na época do regime Fascista, quando a ‘Cinecittà’ criada por Mussolini também priorizava a produção destes filmes tipicamente escapistas, chamados de ‘Telefone Bianchi’.
Romoletto é um adolescente que comanda um grupo de garotos em ações violentas contra os Nazistas. Elas jogavam futebol, como as crianças de sua idade fazem, mas também atuam na Resistência. A brutalidade da Guerra iniciada pelos Nazi-Fascistas fez com que elas tivessem que amadurecer de forma precoce. 
Obs2: Estes filmes italianos do estilo ‘Telefone Bianchi’ (telefones brancos), que foram produzidos na época do regime Fascista, já foram comentados em outros textos publicanos aqui no blog. 

A história de ‘Roma, Cidade Aberta’ gira em torno de cidadãos comuns que lutam contra a violência e o arbítrio do Nazi-Fascismo. São mulheres, homens, membros da Igreja, policiais comuns, adolescentes que lutam por Justiça e Liberdade.

Um dos protagonistas do filme é Dom Pietro, um padre que integra o movimento de Resistência. Ele ajuda e protege os membros do movimento que são perseguidos pelos Nazi-Fascistas, escondendo os mesmos em mosteiros. 

Muitos destes integrantes da Resistência são comunistas, o que é o caso de Giorgio Manfredi e de Francesco, mas para o Padre Pietro a luta por justiça está acima de eventuais diferenças ideológicas ou religiosas. O padre Pietro vê os membros da Resistência como figuras autenticamente cristãs, pois Cristo também lutou e foi perseguido e assassinado por um dos mais brutais Impérios da história, que foi o Romano. 
Marina é a namorada de Manfredi, mas ela tem um relacionamento muito próximo com Ingrid, que lhe fornece roupas bonitas e drogas, em troca de informações sobre as ações dos líderes da Resistência italiana. O filme sugere que existe um romance entre as duas, mas a italiana Marina está sendo descaradamente manipulada por Ingrid.  
Inclusive, a ampla aliança política antifascista existente na Itália e que engloba os mais variados movimentos políticos e segmentos sociais do país fica clara em uma cena na qual o chefe da SS em Roma (Bergmann) folheia vários jornais da Resistência: “L’Unità’ (Comunista); ‘Avanti’ (Socialista); ‘Resistência Liberal’ (Liberal, é claro). 

O filme começa mostrando um plano geral da cidade de Roma e soldados alemães marchando e cantando, mostrando a realidade da ocupação nazista. E fica muito evidente desde o começo a situação de pobreza e miséria em que o povo italiano vive. 

Para poder comer, muitos deles promovem roubos em padarias. E a Polícia italiana faz vistas grossas para essas situações. Afinal, muitos policiais são amigos destes italianos famintos e passam por dificuldades semelhantes. Até mesmo o sacristão participa dessa ação. 

E mesmo nesta situação trágica que o povo italiano vive, há espaço para o humor no filme de Rossellini. Em uma das cenas, quando um adolescente (Marcello) vê o Sacristão com inúmeros pães e este diz que conseguiu os mesmos em uma ‘festa’, o garoto diz ‘espero que a minha mãe tenha ficado sabendo desta festa’.

Em outro momento do filme, o Padre Pietro vai a uma loja se encontrar com um membro da Resistência e na mesma vemos a imagem de um santo católico e uma estátua de uma mulher nua (reprodução da arte da Antiguidade). Incomodado, o Padre Pietro vira as estátuas, fazendo com que elas não fiquem voltadas uma para a outra.  
Desesperada, Pina sai correndo quando vê que o seu noivo, Francesco, foi preso pelos Nazistas. Posteriormente, ele foi libertado devido a uma ação da Resistência italiana. 
Obs3: Fellini foi um dos roteiristas do filme e foi assistente de Rossellini. 

Talvez isso ajude a explicar esses momentos bem humorados em um filme que mostrava um cotidiano marcado pela guerra, fome, miséria, torturas e violência. Inclusive, para Fellini, Roberto Rossellini foi o único cineasta autenticamente Neo-Realista.

Uma das protagonistas da trama é a operária Pina (interpretada por Anna Magnani), que é uma mulher forte e ativa, bastante atuante na Resistência, que trabalhava numa indústria de tecidos que foi destruída durante a Guerra. 

Pina e a sua família dão abrigo a um fugitivo, um importante líder da Resistência, que é Giorgio Manfredi. Este namora uma dançarina italiana (Marina), que tem uma amiga (Ingrid) que é colaboradora da SS alemã, fato este que a dançarina não desconhece. Mesmo assim ela mantém a amizade com Ingrid, pois a mesma lhe fornece drogas e roupas chiques em troca de informações que Marina fornece a respeito dos membros da Resistência.  

Marina fica preocupada com o fato de que Manfredi mandou avisar que eles não poderão se ver por vários dias. Descuidada, ela telefona para o local em que ele está escondido, o que coloca a segurança dele em risco, pois os telefones são grampeados pela SS.
Foi assim que Giorgio Manfredi, importante líder da Resistência italiana, ficou após ser submetido à brutais torturas pelos nazistas. 

Ingrid, a 'namorada' de Bergmann, suborna Marina com casacos de pele luxuosos e belas roupas que, com certeza, os nazistas roubaram de famílias que foram perseguidas e eliminadas por eles, principalmente de judeus. 

Outro membro ativo da Resistência é Francesco, que está prestes a se casar com Pina. Mas no dia do casamento, a Polícia fascista e a SS nazista fazem uma ‘batida’ na região em que ela mora. Desesperada com o fato de que Francesco é levado preso, ela fica indignada com isso e acaba sendo assassinada pelos Nazistas. Mas uma ação bastante ousada da Resistência irá atacar alguns caminhões que levavam prisioneiros e Francesco acabará sendo libertado. 

O filho de Pina (Marcello), ainda criança, também faz parte de uma espécie de ‘Resistência Infanto-Juvenil’, uma ‘organização’ informal que promove ações violentas contra os Nazi-Fascistas e que é liderada por um adolescente chamado Romoletto. Este é uma espécie de herói para Marcello. 

Francesco termina recebendo ajuda de Manfredi, que o abriga na residência da sua namorada (Marina). Porém, esta não é confiável, pois dá um grande valor aos bens materiais e usa drogas, sendo que ela vive numa região rica e possui uma boa residência e belas roupas graças ao fato de ter praticado a prostituição e de ser subornada por Ingrid.
Oficial da SS ironiza a suposta superioridade da 'raça ariana' após constatar todos os crimes e atrocidades que os alemães cometeram durante a Segunda Guerra Mundial. No filme, os Nazistas são associados ao uso de drogas, violência, crueldade, frieza, brutalidade, traição e manipulação. A tal 'raça superior' não passava de uma deslavada mentira. 
Esta fraqueza de Marina por bens materiais e por drogas acaba sendo devidamente explorada por Ingrid (que se sente atraída por Marina), que colabora com o chefe da SS (o afeminado Bergmann). 

Ingrid dá um belo casaco de peles para Marina depois que ela entregou a localização de Manfredi, de Francesco e do Padre. Marina chora, arrependida, mas já é tarde demais, pois dois deles (Manfredi e o Padre Pietro) acabaram sendo presos pela SS. 

Bergmann, o chefe da SS em Roma, também conta com a total colaboração do Comissário de Polícia fascista, que o bajula o tempo inteiro. Enquanto Bergmann faz as suas reuniões, a tortura é uma prática rotineira no edifício da SS, o que chega a incomodá-lo. 

No fim, Manfredi resiste heroicamente às torturas e acaba sendo morto em função das mesmas, o desertor austríaco comete suicídio e o Padre Pietro é executado por um oficial nazista, pois os soldados italianos acabaram se recusando a fuzilar o mesmo.

E os adolescentes que participam da Resistência vão embora, tristes, devido à morte do Padre do qual eles tanto gostavam. Mas a tarefa de reconstruir a Itália no Pós-Guerra será deles. E as marcas que a Guerra deixou em todos eles não irão abandoná-los. 
O Padre Pietro, após ser executado pelos Nazistas. Rossellini sempre foi bastante religioso e esse aspecto será de grande importância nos seus filmes subsequentes. Isso acontece em 'Stromboli' e 'Europa 51', por exemplo (que já foram comentados aqui no blog).  

Informações Adicionais:


Título: Roma Città Aperta (Roma, Cidade Aberta);
Diretor: Roberto Rossellini;
Roteiro: R. Rossellini, F.Fellini, Sergio Amidei; 
Ano de Produção: 1945; País de Produção: Itália;
Fotografia: Ubaldo Arata;
Música: Renzo Rossellini;
Gênero: Drama; Guerra; Duração: 1043minutos;
Elenco: Anna Magnani (Pina); Marcelo Pagliero (Giorgio Manfredi/Luigi Ferraris); Francesco Grandjacquet (Francesco); Aldo Fabrizi (Padre Dom Pietro Pellegrini); Harry Feist (Major Bergmann, chefe da SS); Giovanna Galletti (Ingrid, namorada de Bergmann); Maria Michi (Marina, dançarina); Nando Bruno (Agostino, sacristão); Vito Annichiarico (Marcello, filho de Pina); Eduardo Passarelli (Policial do bairro); Carla Rovere (Lauretta, irmã de Pina); Carlo Sindici (Comissário de Polícia de Roma); Ákos Tolnay (desertor austríaco);Turi Pandolfini (Avô).
Prêmios: Grande Prêmio do Festival de Cannes de 1946.
Os adolescentes que faziam parte da Resistência terão a missão de reconstruir a Itália, devastada pela Guerra e pela ocupação alemã. 

Vídeo - Trecho do Filme:

sexta-feira, 21 de abril de 2017

‘Páscoa Sangrenta’ – Giuseppe De Santis finaliza a ‘Trilogia da Terra’ sobre os conflitos sociais nas áreas rurais da Itália! – Marcos Doniseti!

‘Páscoa Sangrenta’ – Giuseppe De Santis finaliza a ‘Trilogia da Terra’ sobre os conflitos sociais nas áreas rurais da Itália! – Marcos Doniseti!
'Páscoa Sangrenta' (1950) forma, junto com 'Trágica Perseguição' (1947) e 'Arroz Amargo' (1949) a 'Trilogia da Terra' de Giuseppe De Santis, encerrando a mesma. 
O cineasta Giuseppe De Santis foi um dos pioneiros do Neo-Realismo italiano, junto com Luchino Visconti, Roberto Rossellini e Vittorio De Sica. 

Em 1947, ele iniciou o que foi chamada de ‘Trilogia da Terra’, que engloba os filmes ‘Caccia Tragica’ (1947), ‘Riso Amaro’ (1949) e ‘Páscoa Sangrenta’ (1950). 

Segundo o próprio De Santis, o seu objetivo ao realizar a Trilogia era construir uma ‘épica nacional das camadas populares’, da qual estas seriam protagonistas e espectadoras ao mesmo tempo. 

Assim, De Santis tinha o objetivo de, com os seus filmes de temática popular, atingir o grande público, usando de uma linguagem cinematográfica que fosse acessível para as camadas populares. 

Embora ele fosse militante de Esquerda, De Santis ‘admirava a capacidade do cinema norte-americano de criar o espetáculo’, capacidade esta que ele adaptou ‘para debruçar-se sobre o mundo dos humilhados e ofendidos’.
Francesco (Ralf Vallone) e Lucia (Lucia Bosé) formam o par romântico de 'Páscoa Sangrenta'. 
Sobre este assunto, De Santis disse o seguinte: “Minha postura quanto ao realismo implica numa transfiguração da realidade. A arte não é a reprodução de meros documentos. Se nos contentarmos em colocar a câmera na rua ou entre paredes verdadeiras, só poderemos chegar a um realismo de todo exterior. Para mim, o realismo não exclui de modo algum a ficção, nem todos os meios classicamente cinematográficos”.

Obs1: Estas frases ditas por De Santis foram retiradas do capítulo ‘Neo-Realismo Italiano’, de autoria de Mariarosafia Fabris, que consta do livro ‘História do Cinema Mundial’; Fernando Mascarello (org.).

Portanto, De Santis assume uma postura diferente daquela que era adotada por Rossellini, por exemplo, e usa em seus filmes de técnicas de produção mais sofisticadas, indo além de meramente mostrar a realidade, introduzindo elementos ficcionais nas histórias que desenvolve. 

Giuseppe De Santis faz dos seus filmes grandes produções, utilizando-se de atores e atrizes famosos, o que era uma mudança significativa em relação ao período inicial do Neo-Realismo, quando se valorizava os orçamentos baratos e o uso de pessoas comuns, que não eram atores, para trabalhar nas produções Neo-Realistas. 
O pastor Francesco e a sua família lutam para recuperar as ovelhas que foram roubadas pelo ganancioso e desonesto Bonfiglio. 
Isso já havia sido feito por Giuseppe De Santis em ‘Riso Amaro’, que inaugura a sua ‘Trilogia da Terra’ e que contou com a produção de Dino De Laurentis. 

De Laurentis era um importante produtor que também apreciava as grandes produções e contratou centenas de extras para trabalhar no filme e que conta com cenas dignas das grandes produções de Hollywood. ‘Riso Amaro’ (que já foi comentado aqui no blog) também tem a participação da jovem, bela e sensual Silvana Mangano como protagonista. 

‘Riso Amaro’ até mostra a exploração sofrida pelas empregadas temporárias que trabalhavam, durante 40 dias, na colheita do arroz do Vale do Pó, mas a personagem de Silvana Mangano, marcada por uma sensualidade explícita, é o centro das atenções. E o sucesso do filme a transformou num símbolo sexual e em uma estrela 
internacional. 

Aliás, a intenção de Giuseppe De Santis era utilizar, novamente, Silvana Mangano para ser a protagonista de ‘Páscoa Sangrenta’, mas a nova estrela do cinema italiano estava grávida, o que impossibilitou a sua participação no filme. 
Lucia desejava ficar junto com Francesco, mas os pais dela eram contra, pois ele era um camponês miserável. 
Porém, e de forma semelhante a ‘Riso Amaro’, o filme ‘Páscoa Sangrenta’ conta com outra bela atriz italiana no papel da protagonista, que é Lucia Bosé. 

Lucia Bosé havia sido eleita Miss Itália em 1947, quando tinha apenas 16 anos, derrotando Gina Lollobrigida e outras belas candidatas. Logo, ela protagonizou ‘Páscoa Sangrenta’ quando tinha apenas 19 anos de idade, a mesma idade de Silvana Mangano na época da produção de ‘Riso Amaro’. 

Lucia Bosé estreou no Cinema justamente em ‘Páscoa Sangrenta’ e a sua beleza extraordinária não esconde o fato de que ela ainda era uma atriz inexperiente.  

Nos filmes dos quais participou posteriormente ela evoluiu muito como atriz, interpretando personagens mais complexas e que exigiram um desempenho bem superior de sua parte. 

Lucia Bosé foi protagonista, por exemplo, de ‘Cronaca di um Amore’ (1950) e de ‘A Senhora das Camélias’ (1953), filmes nos quais ela foi dirigida por Michelangelo Antonioni. Ela também trabalhou com outros diretores consagrados, como Mauro Bolognini, Luciano Emmer, Luis Bunuel e Federico Fellini. 
Francesco é preso pela Polícia, acusado de ter roubado as ovelhas de Bonfiglio. 
Em ‘Páscoa Sangrenta’, Lucia Bosé interpreta Lucia Silvestri, a jovem e bela filha de um casal de camponeses miseráveis da região de Ciociara, que se localiza entre Roma e Nápoles. Ela é apaixonada por outro camponês, também miserável, que é Francesco Dominici (interpretado por Ralf Vallone), que também é apaixonado por Lucia.

Francesco serviu o Exército italiano durante a Segunda Guerra Mundial e foi feito prisioneiro, retornando para a sua terra natal apenas quando o conflito terminou. 

Mas quando ele retorna para Ciociara, as suas ovelhas foram roubadas por um desonesto e ambicioso camponês local (Agostino Bonfiglio), que se aproveitou da confusão gerada pela Guerra. 

Bonfiglio age desta maneira porque deseja se tornar um grande proprietário, rico e poderoso. Para atingir esse objetivo, se necessário, ele faz uso de ameaças, violências, intimidações, roubos e se alia a um grande proprietário rural da região (Gaetano). Ele chega a mandar colocar fogo nas moradias dos pastores para amedrontá-los. 
Os pais de Lucia, camponeses miseráveis, obrigam Lucia a se casar com Bonfiglio, deixando-a imensamente triste.
Bonfiglio também deseja se casar com a belíssima Lucia, que não tem interesse algum por ele e que, na verdade, o despreza inteiramente. Porém, ele convence o pai e a mãe da jovem Lucia de que se ela aceitar a proposta de casamento ele irão desfrutar de uma vida bem melhor. 

Assim, Lucia acaba sendo convencida a aceitar a proposta de casamento de Bonfiglio. Porém, para evitar isso, ela e Francesco combinam de roubar as ovelhas de Bonfiglio, deixando-o na miséria.  

Mas o esperto e violento camponês não se faz de rogado e denuncia Francesco pelo roubo. Francesco diz que apenas pegou de volta as ovelhas que Bonfiglio lhe havia roubado e diz que Lucia foi testemunha do fato. Mesmo assim ele acaba sendo preso e é submetido a julgamento. 

Durante o julgamento, Francesco tem certeza de que Lucia irá testemunhar a seu favor, dizendo que viu Bonfiglio roubar as ovelhas de Francesco. Mas durante o julgamento os trabalhadores e camponeses da região foram devidamente preparados pelo advogado de Bonfiglio para que afirmassem que as ovelhas eram deste e não de Francesco. 

O advogado de Bonfiglio também é um grande proprietário rural na região e, para ele, é interessante fazer uma aliança com o ambicioso e desonesto proprietário a fim de poder controlar e explorar os pastores da região.
Lucia ficou arrasada quando descobriu que havia sido traída, antes mesmo do casamento, por um marido desonesto, mentiroso e violento.
As intimidações, ameaças e pressões feitas por Bonfiglio surtiram efeito e, no julgamento, Lucia negou ter visto o roubo das ovelhas pelo mesmo. Desta maneira, ela acabou se casando com o desprezível Bonfiglio por exigência dos seus pais. 

Porém, Lucia acabará ficando sozinha já no dia do casamento, pois a irmã de Francesco, uma bonita jovem de 17 anos, foi violentada por Bonfiglio e denunciou o fato perante os moradores da comunidade. 

Apesar de Bonfiglio ter tentado se defender, culpando a jovem pelo que havia acontecido, o mesmo acabou sendo desmoralizado e foi obrigado a viver com a jovem. 

Com isso, Francesco acabou sendo condenado a quatro anos de prisão, pois ele foi considerado culpado de ter roubado as ovelhas que a Justiça ‘confirmou’ que eram de Bonfiglio.  

Porém, alguns meses após o seu julgamento, condenação e prisão, Francesco conseguiu fugir. Quando Lucia fica sabendo disso, ela decide ir ao seu encontro, na esperança de ficar junto com o mesmo. 
Durante o julgamento de Francesco, Lucia foi obrigada, pelo seus pais, a ficar ao lado de Bonfiglio, o que a fez sofrer.
No entanto, inicialmente, ele a repudia, devido ao fato dela ter ficado a favor de Bonfiglio. Ela justifica isso dizendo que foi obrigada a agir daquela maneira por imposição de seus pais. No fim, eles acabam se entendendo, mas ela não gosta da ideia de que Francesco vá se vingar de Bonfiglio. 

Mas é claro que ele decidiu se vingar de Bonfiglio, procurando fazer justiça com as próprias mãos, e nem mesmo Lucia irá conseguir fazê-lo mudar de ideia. Francesco até chega a receber oferta de ajuda dos pastores de ovelha da região, que se propõe a ajuda-lo a prender Bonfiglio para que, posteriormente, o mesmo fosse entregue à Justiça. 

Entretanto, ele recusa tal oferta e decide ir atrás de Bonfiglio. Mas, há um elemento interessante neste filme, que é a presença do Estado como elemento que procura reprimir e controlar os conflitos sociais. A Polícia atua intensamente, o tempo inteiro, para evitar que a violência privada se imponha na região. Em uma cena o chefe da Polícia adverte Bonfiglio para que ele se comporte, agindo dentro da Lei, sem apelar para aquela história de fazer Justiça 'com as próprias mãos'.

Assim, percebe-se que existe uma tradição local de resolver as diferenças com o uso da violência. E isso explica porque Francesco quer se vingar de Bonfiglio de qualquer maneira. 
A belíssima Lucia Bosé fez, em 'Páscoa Sangrenta', a sua estreia no Cinema, com apenas 19 anos. Seu rosto é de uma beleza marcante e inesquecível. 
Mas o ganancioso, violento e desonesto Bonfiglio fica sabendo que Francesco quer vingança e avisa a Polícia, que vai atrás do fugitivo. Mesmo assim, Francesco consegue chegar até a propriedade de Bonfiglio, que foge. Mas este acaba sendo encontrado e encurralado por Francesco e, vendo-se sem saída, Bonfiglio acaba saltando para a morte em um despenhadeiro.  

E o filme tem um final feliz, com o Policial avisando Francesco que ele terá direito a um novo julgamento, no qual será absolvido. E Lucia e Francesco podem, finalmente, viver juntos e felizes. Aliás, finais felizes não eram uma característica que estivesse presente nos filmes Neo-Realistas no início do movimento. 

Portanto, o filme trata dos efeitos da Segunda Guerra Mundial sobre a vida da população, bem como dos conflitos sociais existentes na área rural italiana e as dificuldades e problemas enfrentados pelos pequenos proprietários, criadores de ovelhas, da região de Ciociara. 

Em ‘Páscoa Sangrenta’ também temos algumas coisas em comum com ‘Riso Amaro’ (1949), produção anterior de Giuseppe De Santis, que é a influência do cinema americano, uma história que trata da situação de pobreza e atraso de um segmento da população rural da Itália, a presença de centenas de extras, uma história de amor e de conflitos envolvendo uma protagonista muito bonita, jovem e sensual. 
Depois da fuga de Francesco, Lucia foi atrás dele, pois ainda o amava. 
Lucia Bosé fez a sua estreia no Cinema neste ‘Páscoa Sangrenta’ (1950), tal como ocorreu com Silvana Mangano em ‘Riso Amaro’ (1949). E da mesma maneira que aconteceu com Silvana Mangano, a bela e sensual Lucia Bosé também se tornou uma atriz de muito sucesso na Itália. 

Neste sentido, a ‘Trilogia da Terra’ de Giuseppe De Santis já apontava para uma mudança nas produções dos cineastas identificados com o Neo-Realismo. 

Tais produções foram censuradas e perseguidas pelo governo conservador do PDC e perderam a simpatia do grande público, que se voltou para os filmes originários de Hollywood, que foram estimulados pelo governo italiano. Isso acabou obrigando os cineastas Neo-Realistas a promoveu mudanças em suas obras. 

Eles continuaram mostrando os problemas sociais da Itália da época, mas eles fazem isso de forma a conectar os mesmos com elementos que atraíssem o público para as salas de cinema: 

A) Uma jovem, bela e sensual protagonista; 
B) Uma grande produção; 
C) A influência do Cinema dos EUA; 
D) A presença de atores famosos; 
E) Histórias de crime e amor; 
F) Finais felizes. 
Francesco e Lucia finalmente tem um momento de amor juntos, pelo qual tanto ansiavam. 
Assim, o Neo-Realismo passou por mudanças, que irão gerar, inclusive, o chamado ‘Neo-Realismo Rosa’, que usava da comédia e do humor para mostrar os problemas econômicos e sociais italianos. Isso fez com que as produções Neo-Realistas ficassem mais leves e acessíveis ao grande público. 

E até mesmo um dos criadores do ‘movimento’ Neo-Realista, o genial Vittorio De Sica, acabou fazendo isso, como se pode constatar em ‘Milagro a Milano’. 

Apesar do seu progressivo esgotamento e das mudanças pelas quais passou, o Neo-Realismo deixou uma marca indelével na produção cinematográfica mundial e a sua influência se fez exercer nas décadas seguintes, tal como é possível constatar no Cinema Novo Brasileiro, na Nouvelle Vague e no Cinema Iraniano.

Desta maneira, o Neo-Realismo deixou uma grande marca na história do Cinema Mundial. E por isso os filmes desse 'gênero' cinematográfico merecem sempre ser vistos e revistos. 
Francesco enfrenta Bonfiglio no duelo final. 
Informações Adicionais:

Título: Non c'è Pace Tra Gli Ulivi (Páscoa Sangrenta);
Diretor: Giuseppe De Santis;
Roteiro: Giuseppe De Santis, Gianni Puccini, Carlo Lizzani, Libero De Libero;
País de Produção: Itália; Ano de Produção: 1950;
Gênero: Drama; Duração: 98 minutos;
Fotografia: Piero Portalupi; Música: Goffredo Petrassi;
Elenco: Ralf Vallone (Francesco Dominici); Lucia Bosé (Lucia Silvestri); Maria Grazia Francia (Maria Grazia), Vincenzo Talarico (Advogado de Francesco), Folco Lulli (Agostino Bonfiglio), Piero Tordi (Gaetano Bertarelli, advogado de Bonfiglio), Attilio Torelli, Michele Riccardini, Dante Maggio (Salvatore Capuano).

Vídeo - Trecho do Filme: